Submissão religiosa, maus-tratos e desigualdades laborais complicam a existência de metade da população israelense
Carmen Rengel
Fonte: Brasil de Fato
“És benigno. Senhor eterno. Deus nosso. Rei do Mundo que não me fez mulher”. A cada manhã, numerosos judeus praticantes agradecem à Deus em sua reza de Adom Olam por haver-lhes salvado da escravidão, evitado que caíssem na idolatria e tê-los afastado do estigma de ser mulher, esses seres submetidos, cuja única função sobre a terra é engendrar novos filhos do povo escolhido.
Nem todos os judeus recitam essa ladainha, nem todos creem de pés juntos que ser mulher é uma desonra. Não. Mas o certo é que em Israel a religião se mescla tanto com a vida que acaba por tornar-se lei. Ainda que formalmente não se tenha declarado um “Estado judeu”, Israel o é na prática, e são as mulheres as que mais sofrem essa realidade.
Esse desenho da mulher israelense forte, firme, empreendedora, capaz de pilotar um caça, se esvai com outras qualificações, menos visíveis, mas igualmente reais: as da mulher insultada, aprisionada pela religião, minimizada por uma sociedade masculina. As frágeis mulheres fortes de Israel.
Machismo e matrimônio
As mulheres, que são 51% da população do país (pouco mais de 3,5 milhões de pessoas), veem seus direitos vulnerados especialmente no campo da família. Arrastam a obrigação geral de se casarem por meio de um rito religioso, já que o matrimônio civil não é contemplado e, além disso, só se pode levar a cabo com o consentimento do rabino.
Os problemas aumentam caso o casal queira separar-se. Gila Adahan, advogada de Jerusalém especializada em divórcios, explica que as separações se regem pelas leis do Talmud, dos séculos 4 e 5. “Só o homem pode conceder o divórcio, e tem que entregá-lo por escrito pessoalmente à mulher”. Essa cláusula dá lugar a um fenômeno denominado “mulheres ancoradas”, que não conseguem o divórcio se o marido não quiser ou, inclusive, se ele estiver fisicamente impedido e não puder assiná-lo com seu punho e letra.
A solução, explica a especialista, passa por uma longa espera, já que a média para conseguir o divórcio em Israel é de dez anos, segundo ONGs, e de dois, segundo o governo. Existem mulheres que buscam outra solução: pagam seus esposos para que as deixem separar. “Não é incomum que renunciem à moradia ou à manutenção dos filhos para tal. Chegam a um verdadeiro desespero”, completa.
Critérios bizarros
Kaveh Shafran, porta-voz da associação Rabinos pelos Direitos Humanos, explica que as sinagogas tentam ajudar essas mulheres, convencendo os maridos a dar o braço a torcer. Os ameaçam com o “repúdio” da comunidade, com o impedimento de estudar o Torá, com o rebaixamento no organograma da sinagoga e até com denúncias às autoridades penais – em 2007, 80 homens cumpriam prisão depois de serem apontados por seus rabinos, informa a agência Efe.
Às vezes, até pagam um detetive privado para ir atrás do marido fugido. Os rabinos se envolvem sempre que há uma “causa justificada” para o divórcio, mas aí reside outro dos inconvenientes: a extravagância desses critérios.
Shafran explica que o Talmud não considera como “causa suficientemente argumentada” a infidelidade, a violência ou a ausência prolongada do lar. Por isso, se um homem ataca a punhaladas sua esposa, poderá ir à cadeia, mas não tem que conceder divórcio. Aceita-se como causa justificada o fato de o marido ter mau hálito ou não cumprir com suas obrigações na cama. “Um homem pode repudiar sua mulher se não ela cozinha bem, se encontra outra que o satisfaça mais ou se eles não têm filhos”, diz o rabino.
A solteirice “é o maior mal para a mulher israelense”, afirma um dos rabinos mais conservadores do país, Ovadia Yosef, e nem de longe é uma solução: as solteiras estão condenadas ao ostracismo em sua comunidade. É preciso se casar, e logo (24,5 anos as judias, 20,5 as árabes) e ter muitas crias (três em média). Aqui não fica nem o consolo da Espanha antiga de tornar-se freira. Ao contrário: a mulher participa em pouquíssimos atos das cerimônias litúrgicas e apenas em um punhado de sinagogas mais abertas.
Heranças da religião
Sigal Ronen-Katz, assessora legal da Israel Women's Network (IWN, uma das principais organizações feministas do país), sustenta que a religião marca uma sociedade patriarcal que acaba por gerar maus-tratos. Sempre se difundiu a ideia da israelense valente, pioneira, combatente, criadora do Estado, pilar-mãe da sociedade, “mas, por trás disso, há pressões psicológicas e físicas muito fortes, especialmente no entorno religioso”.
Segundo seus dados, 42% das mulheres ultraortodoxas apanham de seus maridos e 24% sofre violência sexual. Nos últimos 20 anos, 378 mulheres foram assassinadas por seus parceiros. A metade era formada por judias e árabes de idade madura que residiam em zonas radicalizadas.
Quase 36% delas eram estrangeiras, sendo que o número total desse segmento não supera um sexto da população total do país. 2010 foi o pior ano desde 2004, com 18 mortas, o dobro de 2009. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu informou, no Dia Mundial contra a Violência contra a Mulher (25 de novembro), que 200 mil israelenses e 600 mil crianças são vítimas de violência física ou emocional e, quando denunciam, levam em média cinco anos de calvário.
Ele disse isso abaixando a cabeça diante das mulheres que reprovaram sua debilidade em relação aos agressores: há um ano, ele prometeu cinco milhões de shekel [moeda isaraelense] em ajudas e investimento em refúgios, mas ainda não liberou nada. As ligações para o serviço de assessoramento da IWN cresceram entre 30 e 50% no último ano.
Entre as estrangeiras submetidas a maus-tratos, encontram-se, sobretudo, as russas e as etíopes, justamente as minorias mais presentes no mundo da prostituição. A Divisão para o Adiantamento da Mulher (DAW) sustenta que cerca de 3 mil mulheres estão submetidas à exploração sexual, apesar de que a religião deveria ser um freio para a maioria dos israelenses.
Não é assim. “A prostituição é uma forma moderna de escravidão, inclusive neste país que nasceu fazendo iguais a homens e mulheres e já distante de colonialismos e opressões. Em 15 anos, foram deportadas 5 mil mulheres”, afirma Ronen-Katz. A ONU calcula que cada traficante ganha por ano mais de 60 mil dólares por garota, cada uma comprada por entre 7 e 25 mil dólares. Um bordel pequeno, com dez mulheres, pode gerar 250 mil dólares mensais. 70% das jovens são viciadas em drogas.
Trabalho
“As israelenses se movem em uma realidade masculina sob a falsa aparência de serem iguais”, escreveu já em 1978 a feminista Lesley Hazleton. A situação não mudou muito, como revela a cada ano a comissão criada no parlamento israelense sobre a mulher.
Ruhama Avraham Balila, deputada pelo Kadima e ex-ministra do Turismo, repassa os dados desolada. É uma das 23 mulheres de uma câmara com 120 parlamentares, que sempre oscila entre 7 e 10% de representação feminina, habitualmente de partidos de centro ou esquerda. Entre os dados que aponta, encontra-se o de as mulheres terem melhor formação que os homens, com 2 pontos percentuais mais de tituladas em educação formal (22%) e 9 pontos mais no ensino médio.
55,9% dos estudantes de formação superior são mulheres (a sétima melhor cifra do mundo), mas, apesar disso, o desemprego feminino é dois pontos superior ao masculino (de 6,1 a 8,3%). “É desesperador: somos um quarto do professorado universitário e a pressão familiar e religiosa afasta as meninas das carreiras técnicas. Por fim, somos maioria no de sempre: educação, trabalho social, enfermagem, secretariado… Onde estamos em economia ou defesa? Em nenhum lugar, não nos promovem, não nos veem como igual”, diz uma senhora que teve mais espaço na imprensa por ter sido eleita uma das políticas mais bonitas do mundo do que por seu trabalho.
Nunca foi bem visto que mulheres tenham autonomia em seu emprego, assim que 91,4% das empregadas exercem funções de subordinação, contra 80% dos homens. Não chegam a 4,5% as que têm cargos executivos (sete pontos menos do que os homens) e, na política, passam de um terço apenas em prefeituras potentes como a da capital Tel Aviv.
“Só houve nove prefeitas em nosso país”, denuncia Avraham. Na Corte Suprema, em 62 anos de Estado, só houve três mulheres. Nos últimos dias, a briga no Parlamento se centrou em fazer cumprir a lei de igualdade de salários, que chegam a diferenças de até 38%, e a abertura a todos os empregos, pois muitos estão vetados “por ser perniciosos para a saúde da mulher”, como os trabalhos noturnos.
“Não nos deixam ser as judias fortes do Holocausto, ou as que saíram no filme Êxodo. Nos suavizaram no mau sentido. Temos pequenas coisas: um ano de licença maternidade, uma lei contra o assédio al muito potente, ajudas de escolarização… E, entretanto, ser mulher aqui é muito difícil”.
Minoria esquecida
A discriminação geral da mulher israelense se soma, no caso das árabes, ao fato de pertencerem a uma minoria esquecida. Fadwa Lemsine, 36 anos, empresária, se vê como uma vítima tripla, “por ser árabe em um Estado judeu, por suportar uma sociedade patriarcal que exala machismo e por não poder receber a qualificação necessária para escalar neste mundo de economia liberal”. Ela é uma exceção, parte desses escassos 3% de autônomas, sobrevivendo em sua loja de design de interiores. Segundo o Escritório Central de Estatística de Israel, só 18,6% das árabes trabalham, diante de 56% entre as judias.
As mulheres árabes limpam Israel, basicamente. Ou dão aulas em colégios de sua mesma minoria. Ou cozinham. Trabalham por 47% menos do salário de uma israelense. Casam-se antes, têm mais filhos e, ainda que a palestina seja uma das comunidades mais progressistas do Oriente Médio, também carregam o rigor do Islã. “Eu estudei em um centro árabe, não tive subvenção alguma para abrir minha empresa, recebi pressões municipais para contratar judeus… Ainda assim, sou a primeira empresária da minha família, estou orgulhosa”, defende.
Ela colabora em uma associação de mulheres e afirma que um quinto das mulheres de Israel vivem na pobreza e quase um terço não come todos os dias para que nada falte a sua família. “Essa é a tragédia, não temos poder, mas pobreza, e esse círculo vicioso não acaba”, lamenta. A crescente radicalização religiosa do país só complica as coisas. “Maus tempos, é sempre ruim nascer mulher nesta terra”.
Data de Publicação: 03/01/2011
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
(Brasil - Direitos Humanos) - O STF e a tortura
O que sempre defendemos foi a responsabilização jurídica e política dos indivíduos que atuaram como carrascos, e não como agentes do Estado
Tarso Genro*
A recente sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a repressão à guerrilha do Araguaia tratou diretamente de uma controvérsia que enfrentei como ministro da Justiça.
Tratava-se, na época, de defender a aplicabilidade, ou não, da Lei de Anistia para isentar de processo legal os violadores de direitos humanos que, inclusive fora da legalidade do próprio regime militar, cometeram barbáries contra "subversivos" sob custódia do Estado. É bom lembrar que, mesmo durante aquele período excepcional, não existia ordem de serviço ou qualquer outra norma legal que permitisse tortura ou execução de pessoas que estivessem sob custódia. Na Argentina de Videla e no Afeganistão de Bush isso ocorreu, em um momento de regressão às trevas de Torquemada.
No debate que ocorreu aqui no Brasil apareceu a indagação "quem estava defendendo o Brasil"? Sustentei que defender o Brasil era defender o prestígio do nosso Estado de Direito olhando para o futuro.
Era defender, portanto, a não aplicação desta Lei de Anistia aos torturadores. Disse isso na época e reafirmo agora.
Não só porque assim ordenam todos os diplomas de direito internacional -como declarou a Corte Interamericana- mas também porque essa é a posição que traduz a boa interpretação da nossa Constituição Federal.
A estratégia adotada pelos juristas -ou "juristas"- adversários desse pensamento -dentro e fora do Supremo- foi a de alegar que a nossa pretensão era "revisar a Lei de Anistia" e também "atacar as Forças Armadas". Mentiram.
Nunca ninguém defendeu a "revisão" da Lei de Anistia, mas a sua interpretação adequada à Constituição do país. Nunca ninguém quis "revisar" o passado ou agredir as Forças Armadas como instituição, orgulho da nossa soberania.
A bem da verdade, o que tem sido revisado até agora, pela nova direita brasileira, é o papel dos mandatários da ditadura. Os revisionistas ressaltam a nobreza da atuação dos que policiavam e apontam que aqueles que resistiram ao regime fizeram-no de forma espúria. Uma total inversão da história, que reescreve a ditadura de maneira insolente.
De todos os argumentos -todos falsos-, o mais intrigante e covarde foi o último: que o pedido de processamento dos torturadores era um "ataque às Forças Armadas".
Esse argumento tinha dois alvos: intimidar os julgadores (acho que o fizeram com parcial sucesso) e colocar contra os militares os que pretendiam julgar os criminosos.
Bem examinado, os adversários do julgamento dos torturadores é que, com seus argumentos, implicam diretamente as Forças Armadas com a tortura: "misturam" torturadores com a instituição, como se os delinquentes, nos porões do regime, estivessem a mando dela.
Eximem os torturadores, assim, de suas responsabilidades individuais como agentes públicos e, para garantir sua impunidade, os confundem com a corporação. O que sempre defendemos foi a responsabilização jurídica e política dos indivíduos que atuaram, sistematicamente, como carrascos, e não como agentes do Estado.
Assim como os "subversivos" foram responsabilizados jurídica e politicamente por seus atos e expostos, publicamente, antes e depois da redemocratização do país, o justo é que todos respondam perante a lei, mesmo que depois não sejam presos, pela idade avançada.
Os "subversivos" responderam perante os tribunais de exceção.
Que os torturadores respondam perante os tribunais do Estado de Direito, para que as novas gerações saibam de tudo. Para que nunca mais aconteça.
(*) governador eleito do Rio Grande do Sul. Foi ministro da Justiça (2007-2010), ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-1996 e 2001-2002).
Tarso Genro*
A recente sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a repressão à guerrilha do Araguaia tratou diretamente de uma controvérsia que enfrentei como ministro da Justiça.
Tratava-se, na época, de defender a aplicabilidade, ou não, da Lei de Anistia para isentar de processo legal os violadores de direitos humanos que, inclusive fora da legalidade do próprio regime militar, cometeram barbáries contra "subversivos" sob custódia do Estado. É bom lembrar que, mesmo durante aquele período excepcional, não existia ordem de serviço ou qualquer outra norma legal que permitisse tortura ou execução de pessoas que estivessem sob custódia. Na Argentina de Videla e no Afeganistão de Bush isso ocorreu, em um momento de regressão às trevas de Torquemada.
No debate que ocorreu aqui no Brasil apareceu a indagação "quem estava defendendo o Brasil"? Sustentei que defender o Brasil era defender o prestígio do nosso Estado de Direito olhando para o futuro.
Era defender, portanto, a não aplicação desta Lei de Anistia aos torturadores. Disse isso na época e reafirmo agora.
Não só porque assim ordenam todos os diplomas de direito internacional -como declarou a Corte Interamericana- mas também porque essa é a posição que traduz a boa interpretação da nossa Constituição Federal.
A estratégia adotada pelos juristas -ou "juristas"- adversários desse pensamento -dentro e fora do Supremo- foi a de alegar que a nossa pretensão era "revisar a Lei de Anistia" e também "atacar as Forças Armadas". Mentiram.
Nunca ninguém defendeu a "revisão" da Lei de Anistia, mas a sua interpretação adequada à Constituição do país. Nunca ninguém quis "revisar" o passado ou agredir as Forças Armadas como instituição, orgulho da nossa soberania.
A bem da verdade, o que tem sido revisado até agora, pela nova direita brasileira, é o papel dos mandatários da ditadura. Os revisionistas ressaltam a nobreza da atuação dos que policiavam e apontam que aqueles que resistiram ao regime fizeram-no de forma espúria. Uma total inversão da história, que reescreve a ditadura de maneira insolente.
De todos os argumentos -todos falsos-, o mais intrigante e covarde foi o último: que o pedido de processamento dos torturadores era um "ataque às Forças Armadas".
Esse argumento tinha dois alvos: intimidar os julgadores (acho que o fizeram com parcial sucesso) e colocar contra os militares os que pretendiam julgar os criminosos.
Bem examinado, os adversários do julgamento dos torturadores é que, com seus argumentos, implicam diretamente as Forças Armadas com a tortura: "misturam" torturadores com a instituição, como se os delinquentes, nos porões do regime, estivessem a mando dela.
Eximem os torturadores, assim, de suas responsabilidades individuais como agentes públicos e, para garantir sua impunidade, os confundem com a corporação. O que sempre defendemos foi a responsabilização jurídica e política dos indivíduos que atuaram, sistematicamente, como carrascos, e não como agentes do Estado.
Assim como os "subversivos" foram responsabilizados jurídica e politicamente por seus atos e expostos, publicamente, antes e depois da redemocratização do país, o justo é que todos respondam perante a lei, mesmo que depois não sejam presos, pela idade avançada.
Os "subversivos" responderam perante os tribunais de exceção.
Que os torturadores respondam perante os tribunais do Estado de Direito, para que as novas gerações saibam de tudo. Para que nunca mais aconteça.
(*) governador eleito do Rio Grande do Sul. Foi ministro da Justiça (2007-2010), ministro da Educação (2004-2005), ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República (2003-2004) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-1996 e 2001-2002).
domingo, 2 de janeiro de 2011
(Europa - Terrorismo) - A estratégia da tensão
Livro mostra com clareza o terrorismo não reinvindicado da OTAN feito na época da Guerra Fria
Silvia Cattori
Daniele Ganser, professor de história contemporânea na universidade de Basileia e presidente da ASPO-Suíça, publicou um livro de referência sobre os "Exércitos secretos da OTAN" . Segundo ele os Estados Unidos organizaram na Europa Ocidental durante 50 anos atentados que atribuíram mentirosamente à esquerda e à extrema esquerda para as desacreditar aos olhos dos eleitores. Esta estratégia continua hoje em dia para criar o temor do Islão e justificar as guerras do petróleo.
Silvia Cattori: A sua obra consagrada aos exércitos secretos da NATO [1] explica o que é a estratégia da tensão [2] e o grande perigo dos terrorismos bandeira-falsa [3] . O livro mostra-nos como a NATO durante a Guerra Fria – em coordenação com os serviços de informação dos países europeus ocidentais e com o Pentágono – serviu-se de exércitos secretos, recrutou espiões nos meios da extrema direita e organizou actos terroristas que foram atribuídos à extrema esquerda. Sabendo isso, podemo-nos interrogar sobre o que se possa passar hoje em dia sem nós o sabermos.
Daniele Ganser: É muito importante compreender o que a estratégia da tensão realmente é e como funcionou durante esse período. Isso poder-nos-á ajudar a esclarecer o presente e a ver melhor em que medida ela está hoje em dia ainda em funcionamento. Pouca gente sabe o que a expressão estratégia da tensão significa. Por isso é importante falar dela e explicar o que significa. É uma táctica que consiste em cometer atentados criminosos com as próprias mãos e atribuí-los a um outro qualquer. A palavra tensão refere-se à tensão emocional, àquilo que cria um sentimento de medo. A palavra estratégia refere-se ao que alimenta o medo das pessoas em relação a um certo grupo. As estruturas secretas da NATO eram equipadas, financiadas e treinadas pela CIA, em coordenação com o MI6 (os serviços secretos britânicos) para combater as forças armadas da União Soviética em caso de guerra, mas também, segundo as informações de que hoje se dispõe, para cometer atentados terroristas em diversos países [4] . Foi assim que, nos anos 70, os serviços secretos italianos utilizaram exércitos secretos para cometerem atentados terroristas com o fim de provocar o medo na população e depois acusar os comunistas de terem sido os autores. Foi isto numa altura em que o Partido Comunista tinha um poder legislativo importante no Parlamento. A estratégia de tensão tivera por fim desacreditá-lo e enfraquecê-lo, para impedí-lo de poder chegar ao poder executivo.
Silvia Cattori: Saber o que significa é uma coisa. Mas continua a ser difícil acreditar que os nossos governos tenham podido deixar a NATO, os serviços de informação europeus ocidentais e a CIA ameaçar a segurança dos seus próprios cidadãos!
Daniele Ganser: A NATO estava no coração dessa rede clandestina ligada ao terror; o Clandestine Planning Committee (CPC) e o Allied Clandestine Committee (ACC), que estão hoje perfeitamente identificados, eram subestruturas clandestinas da Aliança Atlântica. Agora, ainda que tudo isso seja já bem conhecido, continua a ser difícil saber quem fazia o quê. Não há documentos que mostrem quem comandava, quem organizava a estratégia da tensão, como a NATO, os serviços de informação europeus ocidentais, a CIA, o MI6 e os terroristas recrutados nos meios da extrema direita distribuíam os papéis. A única certeza que temos é que havia, no interior dessas estruturas clandestinas, elementos que utilizaram a estratégia da tensão. Os terroristas de extrema direita explicaram nas suas deposições que foram os serviços secretos e a NATO que os haviam apoiado nessa guerra clandestina. Mas quando se pede explicações a membros da CIA ou da NATO - coisa que fiz durante vários anos - limitam-se a dizer que talvez possa ter havido alguns elementos criminosos que tenham escapado ao seu controlo.
Silvia Cattori: Esses exércitos secretos estavam activos em todos os países europeus ocidentais?
Daniel Ganser: Com as minhas pesquisas consegui provar que esses exércitos secretos existiam, não apenas em Itália, mas em toda a Europa Ocidental: na França, na Bélgica, nos Países Baixos, na Noruega, na Dinamarca, na Suécia, na Finlândia, na Turquia, na Espanha, em Portugal, na Áustria, no Luxemburgo, na Alemanha. Ao princípio pensava-se que houvesse uma estrutura de guerrilha única e que, portanto, todos esses exércitos tivessem participado na estratégia de tensão, logo em atentados terroristas. Ora, é importante saber que nem todos esses exércitos secretos participaram em atentados e compreender o que os diferenciava, porque eles tinham duas actividades distintas. O que parece hoje claro é que as estruturas clandestinas da NATO, no conjunto chamadas Stay Behind [5] , estavam concebidas à partida para levar a cabo guerrilhas em caso de ocupação da Europa Ocidental por parte da União Soviética. Os Estados Unidos diziam que essas redes de guerrilha eram necessárias para colmatar a impreparação em que se encontraram os países invadidos pela Alemanha.
Um certo número de países que sofreram a ocupação alemã, como a Noruega, queriam tirar lições da sua incapacidade demonstrada de resistir ao ocupante e disseram a si próprios que, em caso de nova ocupação, deveriam estar mais bem preparados e ter um exército secreto como segunda opção, se porventura o exército clássico ficasse desfeito. Havia nesses exércitos secretos gente honesta, patriotas sinceros que queriam simplesmente defender o seu país em caso de ocupação.
Silvia Cattori: Se bem compreendo, esses Stay Behind cujo objectivo inicial era preparar-se para a eventualidade duma invasão soviética foram desviados dele para combater a esquerda. Custa a perceber porque razão os partidos de esquerda não investigaram, não denunciaram esses desvios mais cedo?
Daniele Ganser: Se se tomar o caso da Itália, parece que, de cada vez que o Partido Comunista interpelou o governo pedindo explicações sobre o exército secreto que operava no país com o nome de código Gladio [6] , nunca teve resposta sob o pretexto de secredo de Estado. Não é senão em 1990 que Giulio Andreotti [7] reconheceu a existência do Gladio e das suas ligações com a NATO, a CIA e o MI6 [8] . É nessa época também que o juiz Felice Casson conseguiu provar que o verdadeiro autor do atentado de Peteano em 1972, que abalou toda a Itália e que fora até então atribuído a militantes da extrema esquerda, era de facto Vincenzo Vinciguerra, próximo do Ordine Nuovo, um grupo de extrema direita. Vinciguerra confessou haver cometido o atentado de Peteano com a ajuda dos serviços secretos italianos. Vinciguerra falou também da existência desse exército secreto Gladio e explicou como, durante a Guerra Fria, esses atentados clandestinos causaram a morte de mulheres e crianças [9] . Afirmou também que esse exército secreto, controlado pela NATO, tinha ramificações por toda a Europa. Quando apareceu essa informação houve uma crise política em Itália. E é graças às investigações do juiz Felice Casson que se tem hoje conhecimento dos exércitos secretos da NATO.
Na Alemanha quando os socialistas do SPD souberam, em 1990, que existia no seu país - como em todos os outros países europeus - um exército secreto, e que essa estrutura estava ligada aos serviços secretos alemães, bradaram escândalo aos quatro ventos e acusaram o partido democrata-cristão (CDU). Este reagiu dizendo: se nos acusais, vamos a público dizer como vós também, com Willy Brandt, participastes na conspiração. Coincidiu isto com as primeiras eleições na Alemanha reunificada, que o SPD esperava ganhar. Os dirigentes do SPD compreenderam que isso não seria um bom tema eleitoral e acabaram por dar a entender que, no fim de contas, esses exércitos secretos eram justificáveis.
No Parlamento Europeu, em Novembro de 1990, levantaram-se vozes dizendo que não se podia tolerar a existência de exércitos clandestinos, nem deixar por explicar os actos de terror cuja verdadeira origem não era clara e que era necessário investigar. O Parlamento Europeu protestou na altura por escrito junto da NATO e do presidente George Bush senior. Mas nada foi feito.
Só na Itália, Suíça e Bélgica foram levados a cabo inquéritos públicos, e só nestes países se pôs um pouco de ordem neste assunto e se publicou relatórios sobre os exércitos secretos.
Silvia Cattori: E hoje em dia? Esses exércitos clandestinos estarão ainda activos? Haverá estruturas nacionais secretas que escapem ao controlo dos Estados?
Daniele Ganser: Para um historiador é difícil de responder a essa questão. Não se dispõe dum relatório oficial país por país. Nas minhas obras analiso factos que posso provar.
Em relação à Itália, existe um relatório que afirma que o exército secreto Gladio foi suprimido. Sobre a existência do exército secreto P26 na Suíça, houve, em Novembro de 1990, semelhante relatório do Parlamento. Assim, os exércitos clandestinos que armazenaram explosivos em esconderijos um pouco por toda a Suiça foram dissolvidos.
Mas nos outros países não se fez nada. Em França quando o presidente François Mitterrand afirmou que tudo isso pertencia ao passado, soube-se logo a seguir que essas estruturas secretas continuavam activas com a afirmação de Giulio Andreotti que o presidente francês mentia: "Diz o senhor que os exércitos secretos já não existem; ora, aquando da reunião secreta no Outono de 1990, vós também franceses estáveis presentes; não diga portanto que já não existem". Mitterrand ficou bastante zangado com Andreotti pois, após esta revelação, foi obrigado a rectificar a sua declaração. Mais tarde, o antigo chefe dos serviços secretos franceses, o almirante Pierre Lacoste, confirmou que esses exércitos secretos existiam também em França e que a França estivera também implicada em atentados terroristas [10] .
É portanto difícil dizer se tudo isso está acabado. E, ainda que as estruturas Gladio tenham sido dissolvidas, pode-se sem dúvida ter criado outras, continuando-se a servir desta técnica da estratégia da tensão e das bandeiras-falsas.
Silvia Cattori: Pode-se pensar que, após a derrocada da URSS, os Estados Unidos e a NATO tenham continuado a aplicar a estratégia da tensão e as bandeiras-falsas em outras frentes?
Daniele Ganser: As minhas pesquisas concentraram-se sobre o período da Guerra Fria na Europa. Mas sabe-se que, em outros sítios, houve bandeiras-falsas cuja responsabilidade provou-se ter sido dos Estados Unidos. Um exemplo: os atentados em 1953 no Irão, no princípio atribuídos aos comunistas iranianos. Ora ficou comprovado que a CIA e o MI6 se serviram de agentes provocadores para orquestrar a queda o governo de Mohamed Mossadegh. Isto no quadro da guerra pelo controlo do petróleo. Outro exemplo: os atentados no Egipto em 1954 que ao princípio se atribuía aos muçulmanos. Ficou mais tarde provado, naquilo que se chama o caso Lavon [11] , que foram agentes da Mossad os autores. Neste caso tratou-se de Israel conseguir que as tropas britânicas não saíssem do Egipto para garantir a segurança de Israel. Assim, temos exemplos históricos que mostram qe a estratégia da tensão e as falsas-bandeiras foram utilizadas pelos EUA, Grã Bretanha e Israel. É preciso continuarmos as pesquisas nestas áreas porque, na sua história, outros países utilizaram também a mesma estratégia.
Silvia Cattori: Estas estruturas clandestinas da NATO, criadas depois da Segunda Guerra Mundial por iniciativa dos Estados Unidos para dotar os países europeus duma guerrilha capaz de resistir a uma invasão soviética, no fim de contas não serviram para mais nada que levar cabo acções criminosas contra os cidadãos europeus! Tudo leva a crer que os Estados Unidos tinham afinal outros objectivos.
Daniele Ganser: Tem razão em levantar essa questão. Os Estados Unidos estavam interessados no controlo político. Esse controlo político é um elemento essencial da estratégia de Washington e Londres. O general Geraldo Serravalle, chefe do Gladio, a rede italiana do Stay Behind, dá um exemplo disso no seu livro. Ele conta que compreendeu que os Estados Unidos não estavam interessados na preparação dessa guerrilha em caso de invasão soviética quando viu que, o que interessava aos agentes da CIA que assistiam aos exercícios de treino do exército secreto que ele dirigia, era assegurar que esse exército funcionasse de modo a controlar as acções dos militantes comunistas. O medo deles era a subida ao poder dos comunistas em países como a Grécia, a Itália ou a França. Era portanto para isso que servia a estratégia da tensão: orientar e influenciar a política de certos países da Europa Ocidental.
Silvia Cattori: Disse que o elemento emocional é um factor importante na estratégia da tensão. Portanto, o terror, cuja origem é ainda vaporosa e incerta, e o medo que ele provoca, servem para manipular a opinião. Ontem ateava-se o medo do comunismo; hoje não se ateia o medo do Islão?
Daniele Ganser: Sim, há um paralelo bem claro. Como preparação da guerra contra o Iraque disse-se que Sadam Hussein possuía armas biológicas, que havia um elo entre o Iraque e os atentados de 11 de Setembro, ou que havia um elo entre o Iraque e os terroristas da Al Qaida. Mas nada disso era verdade. Com essas mentiras pretendia-se fazer crer ao mundo que os muçulmanos queriam estender o terrorismo por todo o lado e que essa guerra era necessária para combater o terror. Ora, a verdadeira razão da guerra é o controlo dos recursos energéticos. A geologia determinou que as riquezas em gás e petróleo se concentrem nos países muçulmanos. Quem os queira açambarcar tem de se esconder atrás deste género de manipulações.
Eles não podem dizer às pessoas que já não há muito mais petróleo, e que o máximo da produção global – o "peak oil" [12] – dar-se-á provavelmente antes de 2020; nem que é preciso ir buscá-lo ao Iraque; porque isso seria dizerem que é necessário matar crianças por petróleo. E têm razões para não quererem dizer tal coisa. Também não podem dizer às pessoas que no Mar Cáspio há reservas enormes e que têm planos para construir um oleoduto até ao Oceano Índico, e que, como não se pode passar pelo Irão ao sul, nem pela Rússia ao norte, será necessário passar por leste, pelo Turquemenistão e pelo Afeganistão, e que é portanto necessário controlar esses países. Por isso se qualifica os muçulmanos de "terroristas". Não são senão grandes mentiras, mas se forem repetidas vezes sem conta, as pessoas acabarão por crer nelas e na utilidade das guerras antimuçulmanas; assim como esquecerão que há muitas formas de terrorismo, e que a violência não é uma especialidade apenas muçulmana.
Silvia Cattori: Em suma, essas estruturas clandestinas poderiam ter sido dissolvidas, mas a estratégia da tensão pode ter continuado?
Daniele Ganser: Exacto. Pode-se ter dissolvido essas estruturas mas formado outras novas. É preciso explicar como são a táctica e a manipulação na estratégia da tensão. Nada disso é legal. Mas para os Estados é mais fácil manipular as pessoas que dizer-lhes que se está tentando deitar mão ao petróleo alheio. De qualquer modo, nem todos os atentados provêem da estratégia da tensão. Mas é difícil saber quais são os manipulados e quais não são. Mesmo quem saiba que um certo número de atentados são manipulados por Estados para desacreditar um inimigo político, esbarra contra um obstáculo psicológico. Após um atentado as pessoas têm medo, estão confusas. É muito difícil ter ideia que a estratégia da tensão, a estratégia da bandeira-falsa, é uma realidade. É mais fácil aceitar a manipulação e dizer a si próprio: "Há trinta anos que me mantenho informado e nunca ouvi falar de exércitos criminosos nenhuns. Os muçulmanos atacam-nos, e é por isso que os combatemos."
Silvia Cattori: Desde 2001 a União Europeia instaurou medidas antiterroristas. Mais tarde tornou-se evidente que essas medidas permitiram à CIA raptar pessoas e transportá-las para sítios secretos para as torturar. Os Estados europeus não se tornaram um pouco reféns da sua submissão aos Estados Unidos?
Daniele Ganser: Os Estados europeus tiveram uma atitude bastante fraca em relação aos Estados Unidos após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Depois de terem afirmado que as prisões secretas eram ilegais, deixaram de intervir. E o mesmo fizeram com os prisioneiros de Guantânamo. Na Europa levantaram-se vozes afirmando: "Não se pode privar os prisioneiros de defesa e de advogado." Mas quando Madame Angela Merkel levantou esta questão, os Estados Unidos deixaram claramente entender que a Alemanha estava de certo modo implicada no Iraque e que os seus serviços secretos haviam contribuído para a preparação dessa guerra e que portanto deveriam manter-se calados.
Silvia Cattori: Em tal contexto, com tantas zonas de sombra, que segurança traz a NATO aos povos que se presume proteger, permitindo desta maneira aos serviços secretos manipular?
Daniele Ganser: Em relação aos atentados terroristas manipulados pelos exércitos secretos da rede Gladio durante a Guerra Fria é preciso determinar com clareza qual foi a implicação real da NATO neles e saber o que realmente se passou. Trataram-se de actos isolados ou organizados secretamente pela NATO? Até hoje a NATO tem sempre recusado falar da estratégia da tensão e do terrorismo durante a Guerra Fria. A NATO rechaça qualquer questão relativa ao Gladio.
Hoje em dia a NATO é usada como um exército ofensivo, mas não foi para isso que a organização foi criada. Foi activada dessa maneira no dia 12 de Setembro de 2001, imediatamente após os atentados em Nova Iorque. Os dirigentes da NATO afirmam que a razão da sua participação na guerra contra os afegãos é combater o terrorismo. Ora a NATO está em risco de perder essa guerra. Haverá então uma grande crise, debates; o que virá a permitir saber se a NATO conduz, tal como diz, uma guerra contra o terrorismo, ou se se encontra numa situação análoga à que se encontrava durante a Guerra Fria com o exército secreto Gladio, onde tinha uma ligação ela própria com o terror. Os próximos anos dirão se a NATO age para além da missão para que foi fundada: defender os países europeus e os Estados Unidos em caso de invasão soviética, evento que nunca se deu. A NATO não foi fundada para se apoderar do petróleo e do gás dos países muçulmanos.
Silvia Cattori: Percebe-se porque Israel, a quem interessa aumentar os conflitos nos países árabes e muçulmanos, encoraja os Estados Unidos nesse sentido. Mas que interesse possa ser o dos Estados europeus em enviar tropas para guerras decididas pelo Pentágono, como no Afeganistão, por exemplo?
Daniele Ganser: Penso que a Europa esteja confusa. Os Estados Unidos são presentemente os senhores da força e os Europeus têm tendência a pensar que o melhor a fazer é colaborar com o mais forte. Mas é bom pensar um pouco melhor. Os parlamentares europeus cedem facilmente à pressão dos Estados Unidos, os quais reclamam continuamente tropas para esta ou aquela frente. Quanto mais os países europeus cederem, tanto mais se submeterão, e tanto mais se confrontarão com problemas cada vez maiores. No Afeganistão, os alemães e os britânicos estão sob o comando do exército americano. Estrategicamente não é uma posição do interesse desses países. Recentemente os Estados Unidos mandaram os alemães dispor as suas tropas também no sul do Afeganistão em zonas onde as batalhas são mais duras. Se os alemães aceitarem, arriscam-se a serem massacrados pelas forças afegãs, que rejeitam a presença de qualquer ocupante que seja. A Alemanha deveria, com toda a seriedade, perguntar-se se não deveria retirar os seus 3000 soldados do Afeganistão. Mas, para os alemães, desobedecer às ordens dos Estados Unidos, de quem são um pouco como vassalos, é um passo difícil a dar.
Silvia Cattori: Que sabem as autoridades que nos governam hoje em dia da estratégia da tensão? Continuarão a permitir aos fazedores de guerras fomentarem golpes de Estado, raptarem e torturarem pessoas, sem nada fazer? Têm as autoridades ainda os meios necessários de os impedir de levar a cabo tais crimes?
Daniele Ganser: Não sei. Como historiador, observo, tomo notas. Como conselheiro político, afirmo sempre que há que não ceder a manipulações cujo ideia é criar o medo e a fazer crer que os "terroristas" são sempre os muçulmanos; afirmo que se trata duma luta pelos recursos energéticos; que é preciso encontrar formas de sobreviver à penúria energética sem ser no sentido da militirização. Não se pode resolver os problemas de tal jeito; assim só se agravam.
Silvia Cattori: Ao observar a diabolização dos árabes e dos muçulmanos na perspectiva do conflito israelo-palestiniano, diz-se que não tem nada a ver com o petróleo.
Daniele Ganser: Sim, nesse caso, sim. Mas na perspectiva dos Estados Unidos trata-se de facto de controlar as reservas energéticas do bloco euroasiático que se situa na "elipse estratégica" que vai do Azerbaijão, passando pelo Turquemenistão e o Cazaquistão até à Arábia Saudita, o Iraque, o Kuwait e o Golfo Pérsico. É precisamente aí, nessa região, onde se desenrola toda a pretensa guerra "contra o terrorismo", que se concentram as mais importantes reservas de petróleo e gás. Na minha opinião, tudo isto não é mais do que um jogo geoestratégico no qual a União Europeia não pode senão perder. Porque se os Estados Unidos chegam a controlar esses recursos, e com o agravamento da crise energética, aí estarão eles a dizer: "Quereis gás?, quereis petróleo? Pois sim, mas em troca nós queremos isto e aquilo." Os Estados Unidos não darão de graça petróleo e gás aos países europeus. Pouca gente sabe que o "peak oil", o máximo de produção, já foi atingido no Mar do Norte, e que, consequentemente, a produção de petróleo na Europa - a produção da Noruega e da Grã Bretanha - está em declínio.
No dia em que as pessoas se derem conta que estas guerras "contra o terrorismo" são manipulação, e que as acusações contra os muçulmanos são em parte propaganda, ficarão bastante surpreendidas. Os Estados europeus têm que acordar e compreender por fim como funciona a estratégia da tensão. E têm que aprender também a dizer não aos Estados Unidos. Além disso, nos Estados Unidos também há muita gente que não quer esta militarização nas relações internacionais.
Silvia Cattori: Fez também pesquisas sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001 e assinou um livro [13] em conjunto com outros intelectuais que se preocupam com as incoerências e as contradições na versão oficial dos eventos e nas conclusões da comissão de inquérito mandatada pelo senhor Bush. Não teme vir a ser acusado de "teoria da conspiração"?
Daniele Ganser: Os meus estudantes e outras pessoas têm-me perguntado se esta "guerra contra o terrorismo" está de facto relacionada com o petróleo e o gás e se os atentados de 11 de Setembro foram de facto manipulados, ou é uma coincidência que os muçulmanos de Ossama bin Laden tenham atacado exactamente na altura em que os países ocidentais começavam a perceber uma crise do petróleo? Comecei portanto a interessar-me pelo que se escreveu sobre o 11 de Setembro e a estudar também o relatório oficial apresentado em Junho de 2004. Quando se mergulha neste assunto, uma pessoa apercebe-se de imediato que há um grande debate planetário à volta do que realmente se passou em 11 de Setembro de 2001. A informação que se tem não é muito precisa. Uma pessoa começa-se logo por perguntar porque razão, num relatório de 600 páginas, nem sequer está mencionada a derrocada da terceira torre que ocorreu nesse mesmo dia. A comissão não se refere senão à derrocada das duas torres, as "Twin Towers". No entanto, há uma terceira torre de 170 metros de altura que se esbarrondou: a chamada WTC7. No caso dessa torre, fala-se dum pequeno incêndio. Falei com professores que conheciam bem a estrutura desses edifícios; os quais afirmam que um pequeno incêndio, em tal caso, não poderia nunca destruir uma estrutura daquelas dimensões. A história oficial sobre o 11 de Setembro e as conclusões da comissão não são credíveis. Tal ausência de clareza põe os investigadores numa situação muito difícil. Reina também a confusão sobre o que de facto se terá passado no Pentágono. Nas fotografias que se tem é muito difícil ver um avião e não se consegue perceber como é que um avião teria atingido o edifício.
Silvia Cattori: O Parlamento da Venezuela pediu aos Estados Unidos mais explicações sobre a origem dos atentados. Não deveria este ser um exemplo a seguir?
Daniele Ganser: Há muitas incertezas sobre o 11 de Setembro. Os parlamentares, os académicos, os cidadãos podem pedir contas sobre os que realmente se passou. Penso que é importante continuarmos a questionar-nos sobre o assunto. É um evento que ninguém consegue esquecer; cada um de nós lembra-se onde estava naquele momento preciso. É incrível que, cinco anos mais tarde, não se tenha ainda clarificado a questão.
Silvia Cattori: Dir-se-ia que tudo se passa como se as instituições não quisessem pôr em causa a versão oficial. Ter-se-iam deixado manipular pela desinformação organizada e pelos estrategas da tensão e pelas bandeiras-falsas?
Daniele Ganser: É-se manipulável quando se tem medo: medo de perder o seu trabalho, medo de perder o respeito das pessoas que se ama. Não se consegue sair desta espiral de violência e de terror se se deixar tomar pelo medo. É normal ter medo, mas é preciso falar abertamente desse medo e das manipulações que o geram. Ninguém poderá escapar às suas consequências. E isso é tão mais grave quanto os responsáveis políticos agem frequentemente sob o efeito do medo. É preciso encontrar força para dizer: "Sim, tenho medo de saber que estas mentiras causam sofrimento nas pessoas; sim, tenho medo de pensar que não há mais petróleo; sim, tenho medo de pensar que o terrorismo de que se fala é consequência de manipulações, mas não me vou deixar intimidar."
Silvia Cattori: Até que ponto países como a Suiça participam, neste momento, na estratégia da tensão?
Daniele Ganser: Penso que não haja estratégia da tensão na Suiça. Este país não sofre atentados terroristas. Mas, a verdade é que, na Suiça como em outras partes, os políticos que temem os Estados Unidos e a sua força têm tendência a dizer-se: são bons amigos, não temos interesse em batermo-nos contra eles.
Silvia Cattori: Essa maneira de pensar e de cobrir as mentiras que decorrem a estratégia da tensão não os torna um pouco cúmplices dos crimes de que ela é a responsável? A começar pelos jornalistas e pelos partidos políticos?
Daniele Ganser: Pessoalmente penso que toda a gente – jornalistas, académicos, políticos – devem de reflectir sobre as implicações da estratégia da tensão e das bandeiras-falsas. Estamos perante, é verdade, diante de fenómenos que escapam a qualquer compreensão. Por isso, de cada vez que há um atentado terrorista, é preciso questionarmo-nos e procurar descortinar o que ele esconde. E isso não será senão quando se admita oficialmente que as bandeiras-falsas são uma realidade, e que se possa fazer uma lista das bandeiras-falsas ao longo da história e pôrmo-nos de acordo sobre o que se deverá fazer.
A procura da paz é o tema que me interessa. É importante abrir o debate sobre a estratégia da tensão e tomar nota que se trata dum fenómeno bem real. Porque, enquanto se recusar a reconhecer a sua existência, não se poderá agir. Por isso é tão importante explicar o que significa realmente a estratégia da tensão. E, uma vez compreendido, não se deixar tomar pelo medo e pelo ódio contra um grupo. É preciso dizer que não é apenas um país que está implicado nisto; que são só os Estados Unidos, a Itália, Israel ou os iranianos, mas isto sucede em todo o lado, se bem que certos países participem mais intensamente que outros. O que é preciso é compreender, sem acusar tal ou tal país ou tal ou tal pessoa. O medo e o ódio não ajudam a avançar mas sim paralisam o debate. Vejo muitas acusações contra os Estados Unidos, contra Israel, contra a Grã Bretanha, ou alternativamente contra o Irão ou a Síria. A procura da paz ensina-nos que não nos devemos basear em acusações baseadas no nacionalismo, e que não é preciso nem ódio nem medo; que o mais importante é explicar. E essa compreensão será benéfica para todos nós.
Silvia Cattori: Porque é que o seu livro consagrado aos exércitos secretos da NATO, publicado em inglês, traduzido em italiano, em turco, em esloveno e, em breve, em grego, não foi publicado em francês?
Daniele Ganser: Ainda não encontrei editor em França. Se algum editor estiver interessado em publicar o meu livro, é com muito gosto que o verei traduzido em francês.
Silvia Cattori
Daniele Ganser, professor de história contemporânea na universidade de Basileia e presidente da ASPO-Suíça, publicou um livro de referência sobre os "Exércitos secretos da OTAN" . Segundo ele os Estados Unidos organizaram na Europa Ocidental durante 50 anos atentados que atribuíram mentirosamente à esquerda e à extrema esquerda para as desacreditar aos olhos dos eleitores. Esta estratégia continua hoje em dia para criar o temor do Islão e justificar as guerras do petróleo.
Silvia Cattori: A sua obra consagrada aos exércitos secretos da NATO [1] explica o que é a estratégia da tensão [2] e o grande perigo dos terrorismos bandeira-falsa [3] . O livro mostra-nos como a NATO durante a Guerra Fria – em coordenação com os serviços de informação dos países europeus ocidentais e com o Pentágono – serviu-se de exércitos secretos, recrutou espiões nos meios da extrema direita e organizou actos terroristas que foram atribuídos à extrema esquerda. Sabendo isso, podemo-nos interrogar sobre o que se possa passar hoje em dia sem nós o sabermos.
Daniele Ganser: É muito importante compreender o que a estratégia da tensão realmente é e como funcionou durante esse período. Isso poder-nos-á ajudar a esclarecer o presente e a ver melhor em que medida ela está hoje em dia ainda em funcionamento. Pouca gente sabe o que a expressão estratégia da tensão significa. Por isso é importante falar dela e explicar o que significa. É uma táctica que consiste em cometer atentados criminosos com as próprias mãos e atribuí-los a um outro qualquer. A palavra tensão refere-se à tensão emocional, àquilo que cria um sentimento de medo. A palavra estratégia refere-se ao que alimenta o medo das pessoas em relação a um certo grupo. As estruturas secretas da NATO eram equipadas, financiadas e treinadas pela CIA, em coordenação com o MI6 (os serviços secretos britânicos) para combater as forças armadas da União Soviética em caso de guerra, mas também, segundo as informações de que hoje se dispõe, para cometer atentados terroristas em diversos países [4] . Foi assim que, nos anos 70, os serviços secretos italianos utilizaram exércitos secretos para cometerem atentados terroristas com o fim de provocar o medo na população e depois acusar os comunistas de terem sido os autores. Foi isto numa altura em que o Partido Comunista tinha um poder legislativo importante no Parlamento. A estratégia de tensão tivera por fim desacreditá-lo e enfraquecê-lo, para impedí-lo de poder chegar ao poder executivo.
Silvia Cattori: Saber o que significa é uma coisa. Mas continua a ser difícil acreditar que os nossos governos tenham podido deixar a NATO, os serviços de informação europeus ocidentais e a CIA ameaçar a segurança dos seus próprios cidadãos!
Daniele Ganser: A NATO estava no coração dessa rede clandestina ligada ao terror; o Clandestine Planning Committee (CPC) e o Allied Clandestine Committee (ACC), que estão hoje perfeitamente identificados, eram subestruturas clandestinas da Aliança Atlântica. Agora, ainda que tudo isso seja já bem conhecido, continua a ser difícil saber quem fazia o quê. Não há documentos que mostrem quem comandava, quem organizava a estratégia da tensão, como a NATO, os serviços de informação europeus ocidentais, a CIA, o MI6 e os terroristas recrutados nos meios da extrema direita distribuíam os papéis. A única certeza que temos é que havia, no interior dessas estruturas clandestinas, elementos que utilizaram a estratégia da tensão. Os terroristas de extrema direita explicaram nas suas deposições que foram os serviços secretos e a NATO que os haviam apoiado nessa guerra clandestina. Mas quando se pede explicações a membros da CIA ou da NATO - coisa que fiz durante vários anos - limitam-se a dizer que talvez possa ter havido alguns elementos criminosos que tenham escapado ao seu controlo.
Silvia Cattori: Esses exércitos secretos estavam activos em todos os países europeus ocidentais?
Daniel Ganser: Com as minhas pesquisas consegui provar que esses exércitos secretos existiam, não apenas em Itália, mas em toda a Europa Ocidental: na França, na Bélgica, nos Países Baixos, na Noruega, na Dinamarca, na Suécia, na Finlândia, na Turquia, na Espanha, em Portugal, na Áustria, no Luxemburgo, na Alemanha. Ao princípio pensava-se que houvesse uma estrutura de guerrilha única e que, portanto, todos esses exércitos tivessem participado na estratégia de tensão, logo em atentados terroristas. Ora, é importante saber que nem todos esses exércitos secretos participaram em atentados e compreender o que os diferenciava, porque eles tinham duas actividades distintas. O que parece hoje claro é que as estruturas clandestinas da NATO, no conjunto chamadas Stay Behind [5] , estavam concebidas à partida para levar a cabo guerrilhas em caso de ocupação da Europa Ocidental por parte da União Soviética. Os Estados Unidos diziam que essas redes de guerrilha eram necessárias para colmatar a impreparação em que se encontraram os países invadidos pela Alemanha.
Um certo número de países que sofreram a ocupação alemã, como a Noruega, queriam tirar lições da sua incapacidade demonstrada de resistir ao ocupante e disseram a si próprios que, em caso de nova ocupação, deveriam estar mais bem preparados e ter um exército secreto como segunda opção, se porventura o exército clássico ficasse desfeito. Havia nesses exércitos secretos gente honesta, patriotas sinceros que queriam simplesmente defender o seu país em caso de ocupação.
Silvia Cattori: Se bem compreendo, esses Stay Behind cujo objectivo inicial era preparar-se para a eventualidade duma invasão soviética foram desviados dele para combater a esquerda. Custa a perceber porque razão os partidos de esquerda não investigaram, não denunciaram esses desvios mais cedo?
Daniele Ganser: Se se tomar o caso da Itália, parece que, de cada vez que o Partido Comunista interpelou o governo pedindo explicações sobre o exército secreto que operava no país com o nome de código Gladio [6] , nunca teve resposta sob o pretexto de secredo de Estado. Não é senão em 1990 que Giulio Andreotti [7] reconheceu a existência do Gladio e das suas ligações com a NATO, a CIA e o MI6 [8] . É nessa época também que o juiz Felice Casson conseguiu provar que o verdadeiro autor do atentado de Peteano em 1972, que abalou toda a Itália e que fora até então atribuído a militantes da extrema esquerda, era de facto Vincenzo Vinciguerra, próximo do Ordine Nuovo, um grupo de extrema direita. Vinciguerra confessou haver cometido o atentado de Peteano com a ajuda dos serviços secretos italianos. Vinciguerra falou também da existência desse exército secreto Gladio e explicou como, durante a Guerra Fria, esses atentados clandestinos causaram a morte de mulheres e crianças [9] . Afirmou também que esse exército secreto, controlado pela NATO, tinha ramificações por toda a Europa. Quando apareceu essa informação houve uma crise política em Itália. E é graças às investigações do juiz Felice Casson que se tem hoje conhecimento dos exércitos secretos da NATO.
Na Alemanha quando os socialistas do SPD souberam, em 1990, que existia no seu país - como em todos os outros países europeus - um exército secreto, e que essa estrutura estava ligada aos serviços secretos alemães, bradaram escândalo aos quatro ventos e acusaram o partido democrata-cristão (CDU). Este reagiu dizendo: se nos acusais, vamos a público dizer como vós também, com Willy Brandt, participastes na conspiração. Coincidiu isto com as primeiras eleições na Alemanha reunificada, que o SPD esperava ganhar. Os dirigentes do SPD compreenderam que isso não seria um bom tema eleitoral e acabaram por dar a entender que, no fim de contas, esses exércitos secretos eram justificáveis.
No Parlamento Europeu, em Novembro de 1990, levantaram-se vozes dizendo que não se podia tolerar a existência de exércitos clandestinos, nem deixar por explicar os actos de terror cuja verdadeira origem não era clara e que era necessário investigar. O Parlamento Europeu protestou na altura por escrito junto da NATO e do presidente George Bush senior. Mas nada foi feito.
Só na Itália, Suíça e Bélgica foram levados a cabo inquéritos públicos, e só nestes países se pôs um pouco de ordem neste assunto e se publicou relatórios sobre os exércitos secretos.
Silvia Cattori: E hoje em dia? Esses exércitos clandestinos estarão ainda activos? Haverá estruturas nacionais secretas que escapem ao controlo dos Estados?
Daniele Ganser: Para um historiador é difícil de responder a essa questão. Não se dispõe dum relatório oficial país por país. Nas minhas obras analiso factos que posso provar.
Em relação à Itália, existe um relatório que afirma que o exército secreto Gladio foi suprimido. Sobre a existência do exército secreto P26 na Suíça, houve, em Novembro de 1990, semelhante relatório do Parlamento. Assim, os exércitos clandestinos que armazenaram explosivos em esconderijos um pouco por toda a Suiça foram dissolvidos.
Mas nos outros países não se fez nada. Em França quando o presidente François Mitterrand afirmou que tudo isso pertencia ao passado, soube-se logo a seguir que essas estruturas secretas continuavam activas com a afirmação de Giulio Andreotti que o presidente francês mentia: "Diz o senhor que os exércitos secretos já não existem; ora, aquando da reunião secreta no Outono de 1990, vós também franceses estáveis presentes; não diga portanto que já não existem". Mitterrand ficou bastante zangado com Andreotti pois, após esta revelação, foi obrigado a rectificar a sua declaração. Mais tarde, o antigo chefe dos serviços secretos franceses, o almirante Pierre Lacoste, confirmou que esses exércitos secretos existiam também em França e que a França estivera também implicada em atentados terroristas [10] .
É portanto difícil dizer se tudo isso está acabado. E, ainda que as estruturas Gladio tenham sido dissolvidas, pode-se sem dúvida ter criado outras, continuando-se a servir desta técnica da estratégia da tensão e das bandeiras-falsas.
Silvia Cattori: Pode-se pensar que, após a derrocada da URSS, os Estados Unidos e a NATO tenham continuado a aplicar a estratégia da tensão e as bandeiras-falsas em outras frentes?
Daniele Ganser: As minhas pesquisas concentraram-se sobre o período da Guerra Fria na Europa. Mas sabe-se que, em outros sítios, houve bandeiras-falsas cuja responsabilidade provou-se ter sido dos Estados Unidos. Um exemplo: os atentados em 1953 no Irão, no princípio atribuídos aos comunistas iranianos. Ora ficou comprovado que a CIA e o MI6 se serviram de agentes provocadores para orquestrar a queda o governo de Mohamed Mossadegh. Isto no quadro da guerra pelo controlo do petróleo. Outro exemplo: os atentados no Egipto em 1954 que ao princípio se atribuía aos muçulmanos. Ficou mais tarde provado, naquilo que se chama o caso Lavon [11] , que foram agentes da Mossad os autores. Neste caso tratou-se de Israel conseguir que as tropas britânicas não saíssem do Egipto para garantir a segurança de Israel. Assim, temos exemplos históricos que mostram qe a estratégia da tensão e as falsas-bandeiras foram utilizadas pelos EUA, Grã Bretanha e Israel. É preciso continuarmos as pesquisas nestas áreas porque, na sua história, outros países utilizaram também a mesma estratégia.
Silvia Cattori: Estas estruturas clandestinas da NATO, criadas depois da Segunda Guerra Mundial por iniciativa dos Estados Unidos para dotar os países europeus duma guerrilha capaz de resistir a uma invasão soviética, no fim de contas não serviram para mais nada que levar cabo acções criminosas contra os cidadãos europeus! Tudo leva a crer que os Estados Unidos tinham afinal outros objectivos.
Daniele Ganser: Tem razão em levantar essa questão. Os Estados Unidos estavam interessados no controlo político. Esse controlo político é um elemento essencial da estratégia de Washington e Londres. O general Geraldo Serravalle, chefe do Gladio, a rede italiana do Stay Behind, dá um exemplo disso no seu livro. Ele conta que compreendeu que os Estados Unidos não estavam interessados na preparação dessa guerrilha em caso de invasão soviética quando viu que, o que interessava aos agentes da CIA que assistiam aos exercícios de treino do exército secreto que ele dirigia, era assegurar que esse exército funcionasse de modo a controlar as acções dos militantes comunistas. O medo deles era a subida ao poder dos comunistas em países como a Grécia, a Itália ou a França. Era portanto para isso que servia a estratégia da tensão: orientar e influenciar a política de certos países da Europa Ocidental.
Silvia Cattori: Disse que o elemento emocional é um factor importante na estratégia da tensão. Portanto, o terror, cuja origem é ainda vaporosa e incerta, e o medo que ele provoca, servem para manipular a opinião. Ontem ateava-se o medo do comunismo; hoje não se ateia o medo do Islão?
Daniele Ganser: Sim, há um paralelo bem claro. Como preparação da guerra contra o Iraque disse-se que Sadam Hussein possuía armas biológicas, que havia um elo entre o Iraque e os atentados de 11 de Setembro, ou que havia um elo entre o Iraque e os terroristas da Al Qaida. Mas nada disso era verdade. Com essas mentiras pretendia-se fazer crer ao mundo que os muçulmanos queriam estender o terrorismo por todo o lado e que essa guerra era necessária para combater o terror. Ora, a verdadeira razão da guerra é o controlo dos recursos energéticos. A geologia determinou que as riquezas em gás e petróleo se concentrem nos países muçulmanos. Quem os queira açambarcar tem de se esconder atrás deste género de manipulações.
Eles não podem dizer às pessoas que já não há muito mais petróleo, e que o máximo da produção global – o "peak oil" [12] – dar-se-á provavelmente antes de 2020; nem que é preciso ir buscá-lo ao Iraque; porque isso seria dizerem que é necessário matar crianças por petróleo. E têm razões para não quererem dizer tal coisa. Também não podem dizer às pessoas que no Mar Cáspio há reservas enormes e que têm planos para construir um oleoduto até ao Oceano Índico, e que, como não se pode passar pelo Irão ao sul, nem pela Rússia ao norte, será necessário passar por leste, pelo Turquemenistão e pelo Afeganistão, e que é portanto necessário controlar esses países. Por isso se qualifica os muçulmanos de "terroristas". Não são senão grandes mentiras, mas se forem repetidas vezes sem conta, as pessoas acabarão por crer nelas e na utilidade das guerras antimuçulmanas; assim como esquecerão que há muitas formas de terrorismo, e que a violência não é uma especialidade apenas muçulmana.
Silvia Cattori: Em suma, essas estruturas clandestinas poderiam ter sido dissolvidas, mas a estratégia da tensão pode ter continuado?
Daniele Ganser: Exacto. Pode-se ter dissolvido essas estruturas mas formado outras novas. É preciso explicar como são a táctica e a manipulação na estratégia da tensão. Nada disso é legal. Mas para os Estados é mais fácil manipular as pessoas que dizer-lhes que se está tentando deitar mão ao petróleo alheio. De qualquer modo, nem todos os atentados provêem da estratégia da tensão. Mas é difícil saber quais são os manipulados e quais não são. Mesmo quem saiba que um certo número de atentados são manipulados por Estados para desacreditar um inimigo político, esbarra contra um obstáculo psicológico. Após um atentado as pessoas têm medo, estão confusas. É muito difícil ter ideia que a estratégia da tensão, a estratégia da bandeira-falsa, é uma realidade. É mais fácil aceitar a manipulação e dizer a si próprio: "Há trinta anos que me mantenho informado e nunca ouvi falar de exércitos criminosos nenhuns. Os muçulmanos atacam-nos, e é por isso que os combatemos."
Silvia Cattori: Desde 2001 a União Europeia instaurou medidas antiterroristas. Mais tarde tornou-se evidente que essas medidas permitiram à CIA raptar pessoas e transportá-las para sítios secretos para as torturar. Os Estados europeus não se tornaram um pouco reféns da sua submissão aos Estados Unidos?
Daniele Ganser: Os Estados europeus tiveram uma atitude bastante fraca em relação aos Estados Unidos após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Depois de terem afirmado que as prisões secretas eram ilegais, deixaram de intervir. E o mesmo fizeram com os prisioneiros de Guantânamo. Na Europa levantaram-se vozes afirmando: "Não se pode privar os prisioneiros de defesa e de advogado." Mas quando Madame Angela Merkel levantou esta questão, os Estados Unidos deixaram claramente entender que a Alemanha estava de certo modo implicada no Iraque e que os seus serviços secretos haviam contribuído para a preparação dessa guerra e que portanto deveriam manter-se calados.
Silvia Cattori: Em tal contexto, com tantas zonas de sombra, que segurança traz a NATO aos povos que se presume proteger, permitindo desta maneira aos serviços secretos manipular?
Daniele Ganser: Em relação aos atentados terroristas manipulados pelos exércitos secretos da rede Gladio durante a Guerra Fria é preciso determinar com clareza qual foi a implicação real da NATO neles e saber o que realmente se passou. Trataram-se de actos isolados ou organizados secretamente pela NATO? Até hoje a NATO tem sempre recusado falar da estratégia da tensão e do terrorismo durante a Guerra Fria. A NATO rechaça qualquer questão relativa ao Gladio.
Hoje em dia a NATO é usada como um exército ofensivo, mas não foi para isso que a organização foi criada. Foi activada dessa maneira no dia 12 de Setembro de 2001, imediatamente após os atentados em Nova Iorque. Os dirigentes da NATO afirmam que a razão da sua participação na guerra contra os afegãos é combater o terrorismo. Ora a NATO está em risco de perder essa guerra. Haverá então uma grande crise, debates; o que virá a permitir saber se a NATO conduz, tal como diz, uma guerra contra o terrorismo, ou se se encontra numa situação análoga à que se encontrava durante a Guerra Fria com o exército secreto Gladio, onde tinha uma ligação ela própria com o terror. Os próximos anos dirão se a NATO age para além da missão para que foi fundada: defender os países europeus e os Estados Unidos em caso de invasão soviética, evento que nunca se deu. A NATO não foi fundada para se apoderar do petróleo e do gás dos países muçulmanos.
Silvia Cattori: Percebe-se porque Israel, a quem interessa aumentar os conflitos nos países árabes e muçulmanos, encoraja os Estados Unidos nesse sentido. Mas que interesse possa ser o dos Estados europeus em enviar tropas para guerras decididas pelo Pentágono, como no Afeganistão, por exemplo?
Daniele Ganser: Penso que a Europa esteja confusa. Os Estados Unidos são presentemente os senhores da força e os Europeus têm tendência a pensar que o melhor a fazer é colaborar com o mais forte. Mas é bom pensar um pouco melhor. Os parlamentares europeus cedem facilmente à pressão dos Estados Unidos, os quais reclamam continuamente tropas para esta ou aquela frente. Quanto mais os países europeus cederem, tanto mais se submeterão, e tanto mais se confrontarão com problemas cada vez maiores. No Afeganistão, os alemães e os britânicos estão sob o comando do exército americano. Estrategicamente não é uma posição do interesse desses países. Recentemente os Estados Unidos mandaram os alemães dispor as suas tropas também no sul do Afeganistão em zonas onde as batalhas são mais duras. Se os alemães aceitarem, arriscam-se a serem massacrados pelas forças afegãs, que rejeitam a presença de qualquer ocupante que seja. A Alemanha deveria, com toda a seriedade, perguntar-se se não deveria retirar os seus 3000 soldados do Afeganistão. Mas, para os alemães, desobedecer às ordens dos Estados Unidos, de quem são um pouco como vassalos, é um passo difícil a dar.
Silvia Cattori: Que sabem as autoridades que nos governam hoje em dia da estratégia da tensão? Continuarão a permitir aos fazedores de guerras fomentarem golpes de Estado, raptarem e torturarem pessoas, sem nada fazer? Têm as autoridades ainda os meios necessários de os impedir de levar a cabo tais crimes?
Daniele Ganser: Não sei. Como historiador, observo, tomo notas. Como conselheiro político, afirmo sempre que há que não ceder a manipulações cujo ideia é criar o medo e a fazer crer que os "terroristas" são sempre os muçulmanos; afirmo que se trata duma luta pelos recursos energéticos; que é preciso encontrar formas de sobreviver à penúria energética sem ser no sentido da militirização. Não se pode resolver os problemas de tal jeito; assim só se agravam.
Silvia Cattori: Ao observar a diabolização dos árabes e dos muçulmanos na perspectiva do conflito israelo-palestiniano, diz-se que não tem nada a ver com o petróleo.
Daniele Ganser: Sim, nesse caso, sim. Mas na perspectiva dos Estados Unidos trata-se de facto de controlar as reservas energéticas do bloco euroasiático que se situa na "elipse estratégica" que vai do Azerbaijão, passando pelo Turquemenistão e o Cazaquistão até à Arábia Saudita, o Iraque, o Kuwait e o Golfo Pérsico. É precisamente aí, nessa região, onde se desenrola toda a pretensa guerra "contra o terrorismo", que se concentram as mais importantes reservas de petróleo e gás. Na minha opinião, tudo isto não é mais do que um jogo geoestratégico no qual a União Europeia não pode senão perder. Porque se os Estados Unidos chegam a controlar esses recursos, e com o agravamento da crise energética, aí estarão eles a dizer: "Quereis gás?, quereis petróleo? Pois sim, mas em troca nós queremos isto e aquilo." Os Estados Unidos não darão de graça petróleo e gás aos países europeus. Pouca gente sabe que o "peak oil", o máximo de produção, já foi atingido no Mar do Norte, e que, consequentemente, a produção de petróleo na Europa - a produção da Noruega e da Grã Bretanha - está em declínio.
No dia em que as pessoas se derem conta que estas guerras "contra o terrorismo" são manipulação, e que as acusações contra os muçulmanos são em parte propaganda, ficarão bastante surpreendidas. Os Estados europeus têm que acordar e compreender por fim como funciona a estratégia da tensão. E têm que aprender também a dizer não aos Estados Unidos. Além disso, nos Estados Unidos também há muita gente que não quer esta militarização nas relações internacionais.
Silvia Cattori: Fez também pesquisas sobre os atentados de 11 de Setembro de 2001 e assinou um livro [13] em conjunto com outros intelectuais que se preocupam com as incoerências e as contradições na versão oficial dos eventos e nas conclusões da comissão de inquérito mandatada pelo senhor Bush. Não teme vir a ser acusado de "teoria da conspiração"?
Daniele Ganser: Os meus estudantes e outras pessoas têm-me perguntado se esta "guerra contra o terrorismo" está de facto relacionada com o petróleo e o gás e se os atentados de 11 de Setembro foram de facto manipulados, ou é uma coincidência que os muçulmanos de Ossama bin Laden tenham atacado exactamente na altura em que os países ocidentais começavam a perceber uma crise do petróleo? Comecei portanto a interessar-me pelo que se escreveu sobre o 11 de Setembro e a estudar também o relatório oficial apresentado em Junho de 2004. Quando se mergulha neste assunto, uma pessoa apercebe-se de imediato que há um grande debate planetário à volta do que realmente se passou em 11 de Setembro de 2001. A informação que se tem não é muito precisa. Uma pessoa começa-se logo por perguntar porque razão, num relatório de 600 páginas, nem sequer está mencionada a derrocada da terceira torre que ocorreu nesse mesmo dia. A comissão não se refere senão à derrocada das duas torres, as "Twin Towers". No entanto, há uma terceira torre de 170 metros de altura que se esbarrondou: a chamada WTC7. No caso dessa torre, fala-se dum pequeno incêndio. Falei com professores que conheciam bem a estrutura desses edifícios; os quais afirmam que um pequeno incêndio, em tal caso, não poderia nunca destruir uma estrutura daquelas dimensões. A história oficial sobre o 11 de Setembro e as conclusões da comissão não são credíveis. Tal ausência de clareza põe os investigadores numa situação muito difícil. Reina também a confusão sobre o que de facto se terá passado no Pentágono. Nas fotografias que se tem é muito difícil ver um avião e não se consegue perceber como é que um avião teria atingido o edifício.
Silvia Cattori: O Parlamento da Venezuela pediu aos Estados Unidos mais explicações sobre a origem dos atentados. Não deveria este ser um exemplo a seguir?
Daniele Ganser: Há muitas incertezas sobre o 11 de Setembro. Os parlamentares, os académicos, os cidadãos podem pedir contas sobre os que realmente se passou. Penso que é importante continuarmos a questionar-nos sobre o assunto. É um evento que ninguém consegue esquecer; cada um de nós lembra-se onde estava naquele momento preciso. É incrível que, cinco anos mais tarde, não se tenha ainda clarificado a questão.
Silvia Cattori: Dir-se-ia que tudo se passa como se as instituições não quisessem pôr em causa a versão oficial. Ter-se-iam deixado manipular pela desinformação organizada e pelos estrategas da tensão e pelas bandeiras-falsas?
Daniele Ganser: É-se manipulável quando se tem medo: medo de perder o seu trabalho, medo de perder o respeito das pessoas que se ama. Não se consegue sair desta espiral de violência e de terror se se deixar tomar pelo medo. É normal ter medo, mas é preciso falar abertamente desse medo e das manipulações que o geram. Ninguém poderá escapar às suas consequências. E isso é tão mais grave quanto os responsáveis políticos agem frequentemente sob o efeito do medo. É preciso encontrar força para dizer: "Sim, tenho medo de saber que estas mentiras causam sofrimento nas pessoas; sim, tenho medo de pensar que não há mais petróleo; sim, tenho medo de pensar que o terrorismo de que se fala é consequência de manipulações, mas não me vou deixar intimidar."
Silvia Cattori: Até que ponto países como a Suiça participam, neste momento, na estratégia da tensão?
Daniele Ganser: Penso que não haja estratégia da tensão na Suiça. Este país não sofre atentados terroristas. Mas, a verdade é que, na Suiça como em outras partes, os políticos que temem os Estados Unidos e a sua força têm tendência a dizer-se: são bons amigos, não temos interesse em batermo-nos contra eles.
Silvia Cattori: Essa maneira de pensar e de cobrir as mentiras que decorrem a estratégia da tensão não os torna um pouco cúmplices dos crimes de que ela é a responsável? A começar pelos jornalistas e pelos partidos políticos?
Daniele Ganser: Pessoalmente penso que toda a gente – jornalistas, académicos, políticos – devem de reflectir sobre as implicações da estratégia da tensão e das bandeiras-falsas. Estamos perante, é verdade, diante de fenómenos que escapam a qualquer compreensão. Por isso, de cada vez que há um atentado terrorista, é preciso questionarmo-nos e procurar descortinar o que ele esconde. E isso não será senão quando se admita oficialmente que as bandeiras-falsas são uma realidade, e que se possa fazer uma lista das bandeiras-falsas ao longo da história e pôrmo-nos de acordo sobre o que se deverá fazer.
A procura da paz é o tema que me interessa. É importante abrir o debate sobre a estratégia da tensão e tomar nota que se trata dum fenómeno bem real. Porque, enquanto se recusar a reconhecer a sua existência, não se poderá agir. Por isso é tão importante explicar o que significa realmente a estratégia da tensão. E, uma vez compreendido, não se deixar tomar pelo medo e pelo ódio contra um grupo. É preciso dizer que não é apenas um país que está implicado nisto; que são só os Estados Unidos, a Itália, Israel ou os iranianos, mas isto sucede em todo o lado, se bem que certos países participem mais intensamente que outros. O que é preciso é compreender, sem acusar tal ou tal país ou tal ou tal pessoa. O medo e o ódio não ajudam a avançar mas sim paralisam o debate. Vejo muitas acusações contra os Estados Unidos, contra Israel, contra a Grã Bretanha, ou alternativamente contra o Irão ou a Síria. A procura da paz ensina-nos que não nos devemos basear em acusações baseadas no nacionalismo, e que não é preciso nem ódio nem medo; que o mais importante é explicar. E essa compreensão será benéfica para todos nós.
Silvia Cattori: Porque é que o seu livro consagrado aos exércitos secretos da NATO, publicado em inglês, traduzido em italiano, em turco, em esloveno e, em breve, em grego, não foi publicado em francês?
Daniele Ganser: Ainda não encontrei editor em França. Se algum editor estiver interessado em publicar o meu livro, é com muito gosto que o verei traduzido em francês.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
(Brasil - Battisti) - Uma questão de soberania
Presidente Lula decide não extraditar Cesar Battisti para a Itália e provoca reaçao ao estilo Mussolini do governo Berlusconi
Mário Augusto Jakobskind
Fonte: Rede Democrática
Nem bem o Presidente Lula decidiu conceder asilo político para o italiano Cesare Battisti, a direita, seja da Itália ou Brasil, iniciou uma razzia contra o que foi anunciado na última quinta-feira do ano de 2010. A Itália de Silvio Berlusconi, um político que dá bem a ideia da fase adversa porque passa o país, partiu para ameaças do gênero Benito Mussolini, de quem, aliás, o premier é discípulo.
O pedido de extradição de Battisti foi bancado até pelo Partido Democrático, uma espécie de PPS italiano, onde se agrupam os ex-comunistas, que jogaram fora todo um passado de lutas que passa por Antonio Gramsci e a Resistência ao fascismo.
Battisti há muito tempo está na alça de mira da extrema direita italiana e nunca teve a simpatia seja do então Partido Comunista Italiano e dos atuais ex-comunistas. Ele foi condenado à revelia, em um julgamento absolutamente irregular do tipo em que o acusado já chega ao Tribunal condenado de antemão.
Preso no Brasil desde 2007, Battisti já tinha conseguido o asilo político concedido pelo então Ministro da Justiça, Tarso Genro, mas o Supremo Tribunal Federal não aceitou a decisão e acabou decidindo no sentido de o Presidente da República dar a última palavra.
O caso Battisti continuará rendendo por algum tempo. O governo Berlusconi, que não anda lá bem das pernas por envolvimento em uma série fatos negativos, precisa da extradição para ver se recupera a imagem diante da opinião pública. E Battisti na cadeia italiana para o resto da vida ajudaria a alavancar.
A mídia de mercado na Itália entrou na onda de conseguir a extradição do acusado de qualquer maneira. Vai utilizar argumentos manipulados e no tom da época em que um grupo de jovens, equivocadamente, achou que poderia mudar o regime vigente através de ações como as tentadas então.
Depois de 30 ou 40 anos, os próprios jovens daqueles anos já se penitenciaram pelos equívocos cometidos e não há mais razão de ser voltar à vingança contra Battisti, no caso um acusado que já negou inúmeras vezes as denúncias pelas quais foi condenado à prisão perpétua e sem comprovação.
Quando esteve à frente do governo francês, François Mitterrand concedeu o asilo a Battisti, por entender exatamente que se ele fosse entregue à Itália correria não apenas risco de vida, como também não teria como se defender.
Mas o governo italiano da época acabou se conformando com a decisão e não teve o mesmo procedimento de pressionar a França, como fazem agora com o Brasil. E no pós-Mitterrand, o governo de Jacques Chirac decidiu voltar atrás e entregar Battisti, que para evitar o pior acabou fugindo para o México.
O caso Battisti é emblemático. O governo brasileiro, e esperamos também a instância máxima da Justiça brasileira, o STF, não pode ceder às pressões do gênero colonialista mussolinano. Que a mídia de mercado o faça, não é de surpreender.
Impedir a extradição de Battisti agora é uma questão de honra e se fosse uma decisão ao contrário o Brasil estaria jogando fora toda uma tradição de concessão de asilo político a figuras dos mais diversos segmentos ideológicos.
Por aqui já estiveram asilados desde cubanos que lutavam contra a tirania do sargento Fulgêncio Batista, passando pelos portugueses antissalazaristas Miguel Urbano Rodrigues, Humberto Delgado, entre outros, até o salazarista Marcelo Caetano e outro ditador cruel como o paraguaio Alfredo Strossner, um comprovado criminoso institucional.
Mas em relação aos da direita, foram aceitos generosamente pela mídia de mercado.
Em suma: defender a concessão de asilo a Cesare Battisti passou a ser também uma questão de soberania nacional.
Data de Publicação: 31.12.2010
Mário Augusto Jakobskind
Fonte: Rede Democrática
Nem bem o Presidente Lula decidiu conceder asilo político para o italiano Cesare Battisti, a direita, seja da Itália ou Brasil, iniciou uma razzia contra o que foi anunciado na última quinta-feira do ano de 2010. A Itália de Silvio Berlusconi, um político que dá bem a ideia da fase adversa porque passa o país, partiu para ameaças do gênero Benito Mussolini, de quem, aliás, o premier é discípulo.
O pedido de extradição de Battisti foi bancado até pelo Partido Democrático, uma espécie de PPS italiano, onde se agrupam os ex-comunistas, que jogaram fora todo um passado de lutas que passa por Antonio Gramsci e a Resistência ao fascismo.
Battisti há muito tempo está na alça de mira da extrema direita italiana e nunca teve a simpatia seja do então Partido Comunista Italiano e dos atuais ex-comunistas. Ele foi condenado à revelia, em um julgamento absolutamente irregular do tipo em que o acusado já chega ao Tribunal condenado de antemão.
Preso no Brasil desde 2007, Battisti já tinha conseguido o asilo político concedido pelo então Ministro da Justiça, Tarso Genro, mas o Supremo Tribunal Federal não aceitou a decisão e acabou decidindo no sentido de o Presidente da República dar a última palavra.
O caso Battisti continuará rendendo por algum tempo. O governo Berlusconi, que não anda lá bem das pernas por envolvimento em uma série fatos negativos, precisa da extradição para ver se recupera a imagem diante da opinião pública. E Battisti na cadeia italiana para o resto da vida ajudaria a alavancar.
A mídia de mercado na Itália entrou na onda de conseguir a extradição do acusado de qualquer maneira. Vai utilizar argumentos manipulados e no tom da época em que um grupo de jovens, equivocadamente, achou que poderia mudar o regime vigente através de ações como as tentadas então.
Depois de 30 ou 40 anos, os próprios jovens daqueles anos já se penitenciaram pelos equívocos cometidos e não há mais razão de ser voltar à vingança contra Battisti, no caso um acusado que já negou inúmeras vezes as denúncias pelas quais foi condenado à prisão perpétua e sem comprovação.
Quando esteve à frente do governo francês, François Mitterrand concedeu o asilo a Battisti, por entender exatamente que se ele fosse entregue à Itália correria não apenas risco de vida, como também não teria como se defender.
Mas o governo italiano da época acabou se conformando com a decisão e não teve o mesmo procedimento de pressionar a França, como fazem agora com o Brasil. E no pós-Mitterrand, o governo de Jacques Chirac decidiu voltar atrás e entregar Battisti, que para evitar o pior acabou fugindo para o México.
O caso Battisti é emblemático. O governo brasileiro, e esperamos também a instância máxima da Justiça brasileira, o STF, não pode ceder às pressões do gênero colonialista mussolinano. Que a mídia de mercado o faça, não é de surpreender.
Impedir a extradição de Battisti agora é uma questão de honra e se fosse uma decisão ao contrário o Brasil estaria jogando fora toda uma tradição de concessão de asilo político a figuras dos mais diversos segmentos ideológicos.
Por aqui já estiveram asilados desde cubanos que lutavam contra a tirania do sargento Fulgêncio Batista, passando pelos portugueses antissalazaristas Miguel Urbano Rodrigues, Humberto Delgado, entre outros, até o salazarista Marcelo Caetano e outro ditador cruel como o paraguaio Alfredo Strossner, um comprovado criminoso institucional.
Mas em relação aos da direita, foram aceitos generosamente pela mídia de mercado.
Em suma: defender a concessão de asilo a Cesare Battisti passou a ser também uma questão de soberania nacional.
Data de Publicação: 31.12.2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
(Brasil - Violência no Rio de Janeiro) - A violência urbana, segundo Brizola
Trechos do livro "Com a palavra Leonel Brizola" - Páginas 199-206 - analisa o quadro de acirramento da criminalização em áreas pobres do Rio de Janeiro
Osvaldo Maneschy, Madalena Sapucaia e Paulo Becker
O problema de segurança pública adquiriu essa importância, esse nível de gravidade, com a ditadura. Antigamente, uma pessoa podia andar tranqüilamente na rua, praticamente o assalto não existia. Assalto a banco? Isso não existia aqui! Realmente isso era assunto de cinema. As senhoras andavam nas ruas, lá no centro, com as suas bolsas. Havia naquele tempo os chamados punguistas: era os batedores de carteira, eram os passadores do conto do pacote, do conto do vigário, enfim, eram atividades até ingênuas, que eram motivo de crônicas, que todo mundo até apreciava naquele tempo.
Não existia esse clima de violência, de assassinatos, de homicídios. Isso veio com a ditadura. E coincidiu com o agravamento da situação social. E com o empobrecimento da população, com a decadência do sistema educacional. E com a explosão demográfica, que foi agravando, multiplicando esta ordem de problemas.
Receita por receita, os militares tentaram tratar isso com violência, enfrentando de uma forma primária o assunto, até com helicópteros sobre as favelas, sobre as áreas carentes... Agora andam falando em pena de morte, que já existe aqui, como em nenhum outro país!
O Brasil é campeão na utilização da pena de morte, com a quantidade de assassinatos que estão ocorrendo. E o problema se agravando, a situação cada vez pior! Então, vejam, essas duas questões correm paralelas, como grandes males nacionais, como situações absolutamente intoleráveis que condenam, estão estiolando a vida brasileira. Principalmente nas grandes cidades.
Veja o Rio, como tem sido prejudicado por isso. Então essa questão não pode ser realmente analisada como até agora, desconhecendo certos aspectos que estão em águas mais profundas. Acho que a questão educacional é conseqüência de uma cumplicidade das elites brasileiras, que querem o povo brasileiro ignorante. E reagem até contra um programa como esse dos CIEPs. Há gente que tem esse fundo cultural, que não aceita que as crianças, as crianças da nossa pobreza, de nossas populações negras, tenham escola de nível de classe média como tem os filhos deles! Não aceitam.
A floresta de Samora Machel
Quando estive em Moçambique, isso me serviu para entender muito o problema. Samora Machel, que era um ser humano admirável, me disse: "Olha, Brizola, aqui estamos utilizando o idioma do colonizador para fazer a nossa unidade e para nos conhecermos! Como um instrumento de reconhecimento mútuo. Porque são muitos idiomas, dos diversos grupos populacionais que possuímos. Mas, veja, nós agora estamos universalizando isto; mas antes, o colonizador usou, durante séculos, o seu idioma para nos colonizar".
Eles só ensinavam português para uma pequena camada que trabalhava com eles: os empregados domésticos, os motoristas, os carregadores, os serviçais de maneira geral, os trabalhadores que formavam a base da economia e da sociedade colonial que existiu lá até 1975, ano da independência de Moçambique. O idioma português era ensinado restritamente pelo colonizador aos moçambicanos que prestariam serviços a ele. Quanto ao resto da população, os colonizadores nem sabiam quantos eram. Nem queriam saber quantos moçambicanos viviam por lá, pelos matos, pela floresta. Eles eram chamados de "indígenas", não tinham documentos, não andavam nas cidades, e pronto, ninguém se preocupava em sabe se estava doentes, com fome, quantas crianças nasciam, quantas morriam, nada! Viviam à parte da sociedade colon ial, ninguém sabia se matavam algum elefante para comer, para se salvar ou não, quantos viviam nas florestas, pelos matos! Os colonos brancos não tomavam conhecimento. Este é o perfil do próprio colonialismo.
Vejam agora a questão no Rio de Janeiro. Existem aqui duas sociedades: tem uma que é a nossa, onde circulamos, conhecemos pessoas. Estamos aqui nos controlando, conhecemos fulano, beltrano, filho de sicrano, temos carteira de identidade, etc. E se uma pessoa falta, damos falta dela. Se essa pessoa é vítima da violência, todos nós sabemos e ficamos revoltados.
Descendo na escala social, nos deparamos com um outro mundo, subterrâneo, parecido com a floresta descrita por Samora Machel. Lá ninguém sabe quantos matam, quantos morrem, quem manda matar, quem faz o quê. Uma sociedade civilizada que se preze pode conviver com 20, 30, 40 assassinatos diários? Jovens mortos com balas de guerra, muitas vezes pelas costas, e ninguém nem sabe de nada? As notícias sensacionalistas sequer citam nomes e os corpos são jogados em valas ou lixeiras, enquanto famílias não reclamam, temendo os executores. O que é isto, quem mata? Quem morre? Esta é a vida da floresta do Samora Machel?
Aqui, geralmente, tudo se resolve com a explicação: "Ah, isto é disputa por ponto de droga, o traficante tal contra fulano". O problema é que esta explicação resiste à lógica mais elementar. Que diabo de cidade é essa que se impregnou dessa forma? Qual é o lugar do mundo onde se mata dessa maneira? Existe tanto tráfico, tanta gente assim envolvida com banditismo? Podemos aceitar isso para um país como o nosso? Devemos conviver com a floresta de Samora Machel?
Francamente, acho que temos que ir em águas mais profundas. E os vícios? Nó estamos acostumados com os vícios dos próprios serviços de segurança. Num quadro desses, até os bons policiais estão sendo mortos. Isso precisa ser drasticamente saneado! Olhem, não sei de onde sai tanta arma, não sei que tráfico é este, mas sei que procuram criar a idéia de que as favelas são um ambiente de vício! (14-05-91)
As elites fizeram os guetos
Aí está uma questão importante para os amigos repórteres internacionais. Isto que podíamos considerar uma espécie de cultura praticada pelas classes dirigentes de nosso país, levou as favelas, as comunidades pobres, a serem consideradas guetos origem de todos os males. O fato justifica todas as tropelias, todas as demonstrações de força do aparelho policial nas favelas.
Essas ocorrências, conforme a época, têm uma explicação. Agora estamos na fase da droga, do tráfico. Claro que o problema existe, não só a droga, como o tráfico, como a utilização das favelas e até de crianças, nessas atividades criminosas. Mas procuram aproveitar-se dessas ocorrências, exagerando-as, criando iniciativas para demonstração de poder. Para punir e intimidar as pessoas que vivem uma situação que, sob muitos aspectos, é intolerável e dá a elas até o direito de reivindicar.
Eu me criei em bairros pobres, onde as pessoas eram boas, viviam se visitando, conversando, solidárias, ninguém pensava em fazer violência. Eu me criei de pé no chão, como essas crianças que estão aí. Até tenho o pé grande demais porque me criei com o pé à vontade, pisando. O meu dedão é aberto, como de todas as crianças que se criam de pé no chão. Será que mudou tudo isto?! Ou estão mudando tudo isto? Estão oprimindo essas populações? Como é isto? Será que não estamos aqui envoltos por um véu, por um nevoeiro de obscurantismo e não estamos nos dando conta do que está acontecendo? (30-06-93).
Natureza juvenil dos crimes
Na minha opinião, pelo menos 80% da criminalidade existente no Rio de Janeiro são de natureza juvenil. Isso não quer dizer que adultos de 18, 20 ou 22 anos estejam excluídos da estatística. Muitos deles fazem parte de quadrilhas, assaltando residências, assaltando bancos e praticando crimes. Mas esta camada, especificamente, é a camada do Moreira (Moreira Franco, governador que sucedeu a Brizola, em 1983): eram crianças e muitos estudavam em CIEPs que foram fechados, abandonados. Essas crianças e muitos estudavam em CIEPs que foram fechados, abandonados. Essas crianças todas saíram e quem sabe quantas delas estão por aí, perdidas na bandidagem.
O quadro que existe é de violência juvenil, de criminalidade juvenil. As crianças partem da periferia para o centro porque lá há uma população imensa e a situação difícil as empurra para cá. Elas não param de vir e acabam passando pelo meio de nossas pernas, tantas são. Não é arrastão, um garoto desses ataca um chefe de família qualquer, rouba uma bolsa de mulher, o problema é rotineiro. E se tiver por ali um pedaço de madeira, um porrete qualquer, chefe de família vai dar na cabeça da criança?
É uma situação terrível e não tenhamos esperanças de que o problema um dia diminua. Ele não vai diminuir, só vai crescer. Vai aumentar porque é cada vez maior o número de crianças vindas da periferia. A única saída é criarmos colégios tipo CIEPs que atraiam, que absorvam, que eduquem essas crianças. Fazer o que os povos dignos fazem: proteger as crianças, colocando-as em escolas dignas, não permitindo que elas andem pelas ruas.
Na França, criança não pode ficar na rua
Na França, nos dias de semana, criança em idade escolar é proibida de andar nas ruas. Se andar, o juiz pega e quer logo saber: por que está na rua? "Não, eu não fui ao colégio." E ele, de imediato, encaminha a criança para o pai ou a mãe, ou direto para o colégio. E se a criança não está matriculada em escola alguma, ele providencia para que isso seja feito.
Aconteceu isso com o José Maria Rabello, nosso companheiro, no exílio na França. Recém tinha chegado com os filhos, quando um deles foi pego pela polícia e encaminhado ao juiz, que o convocou. Lá, soube que na França, criança em idade escolar, não pode andar solta pelas ruas. O mesmo acontece na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Agora, aqui não! É isso que vemos. Porque na periferia onde vivem, não há escola, não há nada. Outro dia, uma pessoa me construiu o seguinte quadro, que na verdade dá idéia aproximada do que está acontecendo: vamos admitir que estejamos vivendo numa grande cidade que, ao lado, tem uma área úmida, com bastante água parada. E ali se criam muitos mosquitos. A cidade está aqui, os mosquitos estão lá. De repente começa a ventar de lá para cá. Um vento cada vez mais forte, que progressivamente vai inundando a cidade de mosquitos.
As pessoas então começam a se defender dos mosquitos com uma reação primária, até irracional. Usando aquelas bombinhas de flits. Lembram, aquelas manuais? Tchii, tchii, tchii... Só que não conseguem vencer os mosquitos. E aí resolvem apelar para os sprays, mais modernos, mas só podem usá-los dentro de casa. Como combater aquela quantidade de mosquitos lá fora com spray? Aí a única saída é as pessoas passarem a viver confinadas, dentro de suas casas, para se defenderem dos mosquitos.
Isto dá uma idéia da periferia das grandes cidades brasileiras onde nascem tantas crianças. E essas crianças precisam ter um destino digno. Se nasceram, foram produto do amor. Por que não dar a elas um destino digno? Como é que um país como o nosso pode gastar 38 milhões de dólares para o Sr. Roberto Marinho construir um estúdio fantástico de televisão e, ao mesmo tempo, deixar as crianças permanecerem no pântano?
É por isso que elas estão vindo em nossa direção, em número cada vez maior. E sabem quem, na vida real, faz o papel de vento? A televisão. O vento é a televisão. Estamos praticando um haraquiri social, um suicídio coletivo. (05-05-92)
Pior do que o apartheid
Olhem, quando esteve aqui o Nelson Mandela, esta personalidade admirável, falei com ele: "Sr. Mandela, me diga uma coisa, o senhor poderia me dizer se lá na África do Sul, onde está o apartheid, onde está a mais horrenda repressão contra os humildes, contra os pobres em nome do racismo, inadmissível, me diga uma coisa: quando matam, como é que fazem? As famílias recebem os corpos? Há velório? Há enterro cristão para esses mortos? As pessoas sabem os nomes dos mortos?"
Ele me disse: "Sim, senhor". Insisti: "As pessoas sabem dizer que o morto é o fulano, filho da dona fulana que mora ali?" Ele confirmou: "Sim, senhor". Acrescentei: "Então vocês identificam todos os que matam?" Também confirmou isso: "Sim, senhor, até fazemos protestos: esses enterros, esses velórios são todos momentos de protesto, de luta para nós". Aí quem ficou curioso foi ele: "Mas por que me pergunta isso?" Tive que responder" "É por aqui matam-se aos milhares, todos rapazes, jovens, escurinhos, miscigenados, ou negros, e as famílias sabem que mataram, não são identificados, não têm enterro cristão compatível". Ele ficou surpreso: "Mas é verdade?". Chamou um secretário para tomar nota. Eu, por minha parte, pedi para chamarem o senado Abdias do Nascimento, um líder brasileiro das popul ações negras, e pedi que confirmasse o que dizia.
Então digo o seguinte: nós íamos nos conformando porque líamos todos os dias isto nos jornais, além de ouvirmos no rádio e vermos na televisão. A maioria se acostumou. Sem falar nos programas de rádio e televisão específicos tipo "Toma, isto é para o traficante tal, a boca cheia de formiga". Coisas assim... Programas brutais que, de certa forma, criam um oba, oba. E as pessoas vão morrendo, vão caindo, vão desaparecendo...
Ontem mesmo tomamos conhecimento, está nos jornais de hoje, de que até mesmo uma autoridade, uma promotora, teria usado essas palavras: "Ah, bandido é na cadeia ou na valeta!" Na cadeia ou na valeta, ainda repetiu. O que é isto? Estamos despertando para isto, que não pode continuar. Acho que agora nós vamos fazer as famílias aparecerem. Volta e meia quando ando aí pelos bairros, tem uma pobre mãe que se agarra em meus braços e me diz: "Governador, não tenho notícias do meu filho, não sei o que foi feito do meu filho, eu sei que tem mortes lá todos os dias, que eu podia ir lá olhar, mas também não vou porque eu tenho medo. Tenho o Joãozinho, o Antoninho, o fulano, o beltrano, tenho medo que levem os outros"
O que é isto? E quantos assassinatos múltiplos desse tipo foram cometidos? Vocês se lembram daquele ali no caminho que conduz à residência de D. Eugênio? Foram sete! Sete jovens negros... Chego a perguntar: como é que podem matar sete jovens de 16, 17 e 20 anos, fortes? Quantos precisaram para agarrar, para matar? Como é que foram mortos? Será que ninguém viu, nem ouviu os tiros? Chego a pensar até na existência, como disse aqui, de uma câmara à prova de som onde matam e depois carregam para jogar por aí. E como é que podem matar sete jovens, se eles, sabendo que vão morrer, adquirem força de três? É preciso quatro, cinco para agarrar alguém que sabe que vai morrer (30-06-92)
Extermínios e seqüestros andam juntos
Permitam que diga: em minha opinião, esses seqüestros são uma atividade paralela promovida pelos integrantes dos grupos de extermínio. Para essas atividades criminosas torna-se necessária a associação, a estruturação para cometer atos. No caso da matança, é preciso seqüestrar em algum lugar, conduzir, matar, abandonar cadáveres e, sobretudo, fazê-los desaparecer. É necessária uma ação rápida, de tal modo que nenhuma criança consiga ver.
Evoluir dessa ação criminosa para o seqüestro propriamente dito, para o assalto a banco, a residências, a estabelecimentos empresariais, a carros-forte, é um simples passo. Para mim, é a mesma gente: a do seqüestro, a dos assaltos a banco, dos grupos de extermínio, esquadrões da morte, responsáveis por esta matança e também dos assaltos organizados que surgem aqui e ali contra estabelecimentos empresariais, contra empresas ou contra residências. Antigamente as polícias eram patronais e locais: com o governo Vargas e com a revolução de 30 é que a policia foi se transformando numa instituição, não dominada pelos patrões e não de natureza local e municipal. Foi adquirindo realmente uma expressão institucional. E retornar para a polícia patronal como ocorreu durante a ditadura, criando ess a quantidade imensa de serviços de segurança, ao ponto que hoje no Rio de Janeiro, existe o maior número de seguranças particulares, polícias particulares, do que integrantes das instituições policiais. E como surgiu tudo isto? Isto tudo surgiu da intenção de aniquilar as pessoas. Primeiro surgiram os grupos de extermínio. Isto vem de muito longe, e há muito tempo que se fala: eu era jovem, vinha ao Rio de Janeiro de vez em quando, morava no Rio Grande do Sul, e aqui já se falava em esquadrão da morte. Houve aquela tentativa de matar mendigos, sempre uma doutrina no sentido de eliminar – em vez de cuidar dos mendigos, em vez de cuidar dos mendigos, em vez de encarcerar os jovens delinqüentes, ou mesmo criminosos, matar! Foi esta doutrina que formou, que incentivou, que criou, que acabou desenvolvendo esta atividade criminosa. (17-07-91)
Osvaldo Maneschy, Madalena Sapucaia e Paulo Becker
O problema de segurança pública adquiriu essa importância, esse nível de gravidade, com a ditadura. Antigamente, uma pessoa podia andar tranqüilamente na rua, praticamente o assalto não existia. Assalto a banco? Isso não existia aqui! Realmente isso era assunto de cinema. As senhoras andavam nas ruas, lá no centro, com as suas bolsas. Havia naquele tempo os chamados punguistas: era os batedores de carteira, eram os passadores do conto do pacote, do conto do vigário, enfim, eram atividades até ingênuas, que eram motivo de crônicas, que todo mundo até apreciava naquele tempo.
Não existia esse clima de violência, de assassinatos, de homicídios. Isso veio com a ditadura. E coincidiu com o agravamento da situação social. E com o empobrecimento da população, com a decadência do sistema educacional. E com a explosão demográfica, que foi agravando, multiplicando esta ordem de problemas.
Receita por receita, os militares tentaram tratar isso com violência, enfrentando de uma forma primária o assunto, até com helicópteros sobre as favelas, sobre as áreas carentes... Agora andam falando em pena de morte, que já existe aqui, como em nenhum outro país!
O Brasil é campeão na utilização da pena de morte, com a quantidade de assassinatos que estão ocorrendo. E o problema se agravando, a situação cada vez pior! Então, vejam, essas duas questões correm paralelas, como grandes males nacionais, como situações absolutamente intoleráveis que condenam, estão estiolando a vida brasileira. Principalmente nas grandes cidades.
Veja o Rio, como tem sido prejudicado por isso. Então essa questão não pode ser realmente analisada como até agora, desconhecendo certos aspectos que estão em águas mais profundas. Acho que a questão educacional é conseqüência de uma cumplicidade das elites brasileiras, que querem o povo brasileiro ignorante. E reagem até contra um programa como esse dos CIEPs. Há gente que tem esse fundo cultural, que não aceita que as crianças, as crianças da nossa pobreza, de nossas populações negras, tenham escola de nível de classe média como tem os filhos deles! Não aceitam.
A floresta de Samora Machel
Quando estive em Moçambique, isso me serviu para entender muito o problema. Samora Machel, que era um ser humano admirável, me disse: "Olha, Brizola, aqui estamos utilizando o idioma do colonizador para fazer a nossa unidade e para nos conhecermos! Como um instrumento de reconhecimento mútuo. Porque são muitos idiomas, dos diversos grupos populacionais que possuímos. Mas, veja, nós agora estamos universalizando isto; mas antes, o colonizador usou, durante séculos, o seu idioma para nos colonizar".
Eles só ensinavam português para uma pequena camada que trabalhava com eles: os empregados domésticos, os motoristas, os carregadores, os serviçais de maneira geral, os trabalhadores que formavam a base da economia e da sociedade colonial que existiu lá até 1975, ano da independência de Moçambique. O idioma português era ensinado restritamente pelo colonizador aos moçambicanos que prestariam serviços a ele. Quanto ao resto da população, os colonizadores nem sabiam quantos eram. Nem queriam saber quantos moçambicanos viviam por lá, pelos matos, pela floresta. Eles eram chamados de "indígenas", não tinham documentos, não andavam nas cidades, e pronto, ninguém se preocupava em sabe se estava doentes, com fome, quantas crianças nasciam, quantas morriam, nada! Viviam à parte da sociedade colon ial, ninguém sabia se matavam algum elefante para comer, para se salvar ou não, quantos viviam nas florestas, pelos matos! Os colonos brancos não tomavam conhecimento. Este é o perfil do próprio colonialismo.
Vejam agora a questão no Rio de Janeiro. Existem aqui duas sociedades: tem uma que é a nossa, onde circulamos, conhecemos pessoas. Estamos aqui nos controlando, conhecemos fulano, beltrano, filho de sicrano, temos carteira de identidade, etc. E se uma pessoa falta, damos falta dela. Se essa pessoa é vítima da violência, todos nós sabemos e ficamos revoltados.
Descendo na escala social, nos deparamos com um outro mundo, subterrâneo, parecido com a floresta descrita por Samora Machel. Lá ninguém sabe quantos matam, quantos morrem, quem manda matar, quem faz o quê. Uma sociedade civilizada que se preze pode conviver com 20, 30, 40 assassinatos diários? Jovens mortos com balas de guerra, muitas vezes pelas costas, e ninguém nem sabe de nada? As notícias sensacionalistas sequer citam nomes e os corpos são jogados em valas ou lixeiras, enquanto famílias não reclamam, temendo os executores. O que é isto, quem mata? Quem morre? Esta é a vida da floresta do Samora Machel?
Aqui, geralmente, tudo se resolve com a explicação: "Ah, isto é disputa por ponto de droga, o traficante tal contra fulano". O problema é que esta explicação resiste à lógica mais elementar. Que diabo de cidade é essa que se impregnou dessa forma? Qual é o lugar do mundo onde se mata dessa maneira? Existe tanto tráfico, tanta gente assim envolvida com banditismo? Podemos aceitar isso para um país como o nosso? Devemos conviver com a floresta de Samora Machel?
Francamente, acho que temos que ir em águas mais profundas. E os vícios? Nó estamos acostumados com os vícios dos próprios serviços de segurança. Num quadro desses, até os bons policiais estão sendo mortos. Isso precisa ser drasticamente saneado! Olhem, não sei de onde sai tanta arma, não sei que tráfico é este, mas sei que procuram criar a idéia de que as favelas são um ambiente de vício! (14-05-91)
As elites fizeram os guetos
Aí está uma questão importante para os amigos repórteres internacionais. Isto que podíamos considerar uma espécie de cultura praticada pelas classes dirigentes de nosso país, levou as favelas, as comunidades pobres, a serem consideradas guetos origem de todos os males. O fato justifica todas as tropelias, todas as demonstrações de força do aparelho policial nas favelas.
Essas ocorrências, conforme a época, têm uma explicação. Agora estamos na fase da droga, do tráfico. Claro que o problema existe, não só a droga, como o tráfico, como a utilização das favelas e até de crianças, nessas atividades criminosas. Mas procuram aproveitar-se dessas ocorrências, exagerando-as, criando iniciativas para demonstração de poder. Para punir e intimidar as pessoas que vivem uma situação que, sob muitos aspectos, é intolerável e dá a elas até o direito de reivindicar.
Eu me criei em bairros pobres, onde as pessoas eram boas, viviam se visitando, conversando, solidárias, ninguém pensava em fazer violência. Eu me criei de pé no chão, como essas crianças que estão aí. Até tenho o pé grande demais porque me criei com o pé à vontade, pisando. O meu dedão é aberto, como de todas as crianças que se criam de pé no chão. Será que mudou tudo isto?! Ou estão mudando tudo isto? Estão oprimindo essas populações? Como é isto? Será que não estamos aqui envoltos por um véu, por um nevoeiro de obscurantismo e não estamos nos dando conta do que está acontecendo? (30-06-93).
Natureza juvenil dos crimes
Na minha opinião, pelo menos 80% da criminalidade existente no Rio de Janeiro são de natureza juvenil. Isso não quer dizer que adultos de 18, 20 ou 22 anos estejam excluídos da estatística. Muitos deles fazem parte de quadrilhas, assaltando residências, assaltando bancos e praticando crimes. Mas esta camada, especificamente, é a camada do Moreira (Moreira Franco, governador que sucedeu a Brizola, em 1983): eram crianças e muitos estudavam em CIEPs que foram fechados, abandonados. Essas crianças e muitos estudavam em CIEPs que foram fechados, abandonados. Essas crianças todas saíram e quem sabe quantas delas estão por aí, perdidas na bandidagem.
O quadro que existe é de violência juvenil, de criminalidade juvenil. As crianças partem da periferia para o centro porque lá há uma população imensa e a situação difícil as empurra para cá. Elas não param de vir e acabam passando pelo meio de nossas pernas, tantas são. Não é arrastão, um garoto desses ataca um chefe de família qualquer, rouba uma bolsa de mulher, o problema é rotineiro. E se tiver por ali um pedaço de madeira, um porrete qualquer, chefe de família vai dar na cabeça da criança?
É uma situação terrível e não tenhamos esperanças de que o problema um dia diminua. Ele não vai diminuir, só vai crescer. Vai aumentar porque é cada vez maior o número de crianças vindas da periferia. A única saída é criarmos colégios tipo CIEPs que atraiam, que absorvam, que eduquem essas crianças. Fazer o que os povos dignos fazem: proteger as crianças, colocando-as em escolas dignas, não permitindo que elas andem pelas ruas.
Na França, criança não pode ficar na rua
Na França, nos dias de semana, criança em idade escolar é proibida de andar nas ruas. Se andar, o juiz pega e quer logo saber: por que está na rua? "Não, eu não fui ao colégio." E ele, de imediato, encaminha a criança para o pai ou a mãe, ou direto para o colégio. E se a criança não está matriculada em escola alguma, ele providencia para que isso seja feito.
Aconteceu isso com o José Maria Rabello, nosso companheiro, no exílio na França. Recém tinha chegado com os filhos, quando um deles foi pego pela polícia e encaminhado ao juiz, que o convocou. Lá, soube que na França, criança em idade escolar, não pode andar solta pelas ruas. O mesmo acontece na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos.
Agora, aqui não! É isso que vemos. Porque na periferia onde vivem, não há escola, não há nada. Outro dia, uma pessoa me construiu o seguinte quadro, que na verdade dá idéia aproximada do que está acontecendo: vamos admitir que estejamos vivendo numa grande cidade que, ao lado, tem uma área úmida, com bastante água parada. E ali se criam muitos mosquitos. A cidade está aqui, os mosquitos estão lá. De repente começa a ventar de lá para cá. Um vento cada vez mais forte, que progressivamente vai inundando a cidade de mosquitos.
As pessoas então começam a se defender dos mosquitos com uma reação primária, até irracional. Usando aquelas bombinhas de flits. Lembram, aquelas manuais? Tchii, tchii, tchii... Só que não conseguem vencer os mosquitos. E aí resolvem apelar para os sprays, mais modernos, mas só podem usá-los dentro de casa. Como combater aquela quantidade de mosquitos lá fora com spray? Aí a única saída é as pessoas passarem a viver confinadas, dentro de suas casas, para se defenderem dos mosquitos.
Isto dá uma idéia da periferia das grandes cidades brasileiras onde nascem tantas crianças. E essas crianças precisam ter um destino digno. Se nasceram, foram produto do amor. Por que não dar a elas um destino digno? Como é que um país como o nosso pode gastar 38 milhões de dólares para o Sr. Roberto Marinho construir um estúdio fantástico de televisão e, ao mesmo tempo, deixar as crianças permanecerem no pântano?
É por isso que elas estão vindo em nossa direção, em número cada vez maior. E sabem quem, na vida real, faz o papel de vento? A televisão. O vento é a televisão. Estamos praticando um haraquiri social, um suicídio coletivo. (05-05-92)
Pior do que o apartheid
Olhem, quando esteve aqui o Nelson Mandela, esta personalidade admirável, falei com ele: "Sr. Mandela, me diga uma coisa, o senhor poderia me dizer se lá na África do Sul, onde está o apartheid, onde está a mais horrenda repressão contra os humildes, contra os pobres em nome do racismo, inadmissível, me diga uma coisa: quando matam, como é que fazem? As famílias recebem os corpos? Há velório? Há enterro cristão para esses mortos? As pessoas sabem os nomes dos mortos?"
Ele me disse: "Sim, senhor". Insisti: "As pessoas sabem dizer que o morto é o fulano, filho da dona fulana que mora ali?" Ele confirmou: "Sim, senhor". Acrescentei: "Então vocês identificam todos os que matam?" Também confirmou isso: "Sim, senhor, até fazemos protestos: esses enterros, esses velórios são todos momentos de protesto, de luta para nós". Aí quem ficou curioso foi ele: "Mas por que me pergunta isso?" Tive que responder" "É por aqui matam-se aos milhares, todos rapazes, jovens, escurinhos, miscigenados, ou negros, e as famílias sabem que mataram, não são identificados, não têm enterro cristão compatível". Ele ficou surpreso: "Mas é verdade?". Chamou um secretário para tomar nota. Eu, por minha parte, pedi para chamarem o senado Abdias do Nascimento, um líder brasileiro das popul ações negras, e pedi que confirmasse o que dizia.
Então digo o seguinte: nós íamos nos conformando porque líamos todos os dias isto nos jornais, além de ouvirmos no rádio e vermos na televisão. A maioria se acostumou. Sem falar nos programas de rádio e televisão específicos tipo "Toma, isto é para o traficante tal, a boca cheia de formiga". Coisas assim... Programas brutais que, de certa forma, criam um oba, oba. E as pessoas vão morrendo, vão caindo, vão desaparecendo...
Ontem mesmo tomamos conhecimento, está nos jornais de hoje, de que até mesmo uma autoridade, uma promotora, teria usado essas palavras: "Ah, bandido é na cadeia ou na valeta!" Na cadeia ou na valeta, ainda repetiu. O que é isto? Estamos despertando para isto, que não pode continuar. Acho que agora nós vamos fazer as famílias aparecerem. Volta e meia quando ando aí pelos bairros, tem uma pobre mãe que se agarra em meus braços e me diz: "Governador, não tenho notícias do meu filho, não sei o que foi feito do meu filho, eu sei que tem mortes lá todos os dias, que eu podia ir lá olhar, mas também não vou porque eu tenho medo. Tenho o Joãozinho, o Antoninho, o fulano, o beltrano, tenho medo que levem os outros"
O que é isto? E quantos assassinatos múltiplos desse tipo foram cometidos? Vocês se lembram daquele ali no caminho que conduz à residência de D. Eugênio? Foram sete! Sete jovens negros... Chego a perguntar: como é que podem matar sete jovens de 16, 17 e 20 anos, fortes? Quantos precisaram para agarrar, para matar? Como é que foram mortos? Será que ninguém viu, nem ouviu os tiros? Chego a pensar até na existência, como disse aqui, de uma câmara à prova de som onde matam e depois carregam para jogar por aí. E como é que podem matar sete jovens, se eles, sabendo que vão morrer, adquirem força de três? É preciso quatro, cinco para agarrar alguém que sabe que vai morrer (30-06-92)
Extermínios e seqüestros andam juntos
Permitam que diga: em minha opinião, esses seqüestros são uma atividade paralela promovida pelos integrantes dos grupos de extermínio. Para essas atividades criminosas torna-se necessária a associação, a estruturação para cometer atos. No caso da matança, é preciso seqüestrar em algum lugar, conduzir, matar, abandonar cadáveres e, sobretudo, fazê-los desaparecer. É necessária uma ação rápida, de tal modo que nenhuma criança consiga ver.
Evoluir dessa ação criminosa para o seqüestro propriamente dito, para o assalto a banco, a residências, a estabelecimentos empresariais, a carros-forte, é um simples passo. Para mim, é a mesma gente: a do seqüestro, a dos assaltos a banco, dos grupos de extermínio, esquadrões da morte, responsáveis por esta matança e também dos assaltos organizados que surgem aqui e ali contra estabelecimentos empresariais, contra empresas ou contra residências. Antigamente as polícias eram patronais e locais: com o governo Vargas e com a revolução de 30 é que a policia foi se transformando numa instituição, não dominada pelos patrões e não de natureza local e municipal. Foi adquirindo realmente uma expressão institucional. E retornar para a polícia patronal como ocorreu durante a ditadura, criando ess a quantidade imensa de serviços de segurança, ao ponto que hoje no Rio de Janeiro, existe o maior número de seguranças particulares, polícias particulares, do que integrantes das instituições policiais. E como surgiu tudo isto? Isto tudo surgiu da intenção de aniquilar as pessoas. Primeiro surgiram os grupos de extermínio. Isto vem de muito longe, e há muito tempo que se fala: eu era jovem, vinha ao Rio de Janeiro de vez em quando, morava no Rio Grande do Sul, e aqui já se falava em esquadrão da morte. Houve aquela tentativa de matar mendigos, sempre uma doutrina no sentido de eliminar – em vez de cuidar dos mendigos, em vez de cuidar dos mendigos, em vez de encarcerar os jovens delinqüentes, ou mesmo criminosos, matar! Foi esta doutrina que formou, que incentivou, que criou, que acabou desenvolvendo esta atividade criminosa. (17-07-91)
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
(Honduras - Derechos Humanos) - El año termina con diez periodistas muertos
El presidente Porfirio Lobo vincula los crímenes a la delincuencia común, quitándoles contenido político. Siguen impunes la mayoría de los asesinatos de los trabajadores de medios cometidos después del golpe de Estado.
Luciana Bertoia.
Fuente: Pagna 12
Otro periodista fue asesinado ayer en Honduras, con lo que ya suman diez los trabajadores de prensa asesinados en 2010. Mientras el presidente Porfirio Lobo vincula estos crímenes a la delincuencia común, las organizaciones de derechos humanos denuncian que la represión sigue creciendo en Tegucigalpa.
Al salir de su casa ubicada en el municipio de la Masica, Atlántida (norte), Henry Souza se desplomó. Varios sujetos, aún no está confirmado el número, lo acribillaron a balazos. Según relataron los vecinos de la zona, los atacantes tuvieron tiempo para fugarse en bicicleta. Al cierre de esta edición, no se había dado a conocer información oficial acerca del asesinato del comunicador, que era corresponsal de la importante emisora HRN en la ciudad de La Ceiba y que también trabajaba en el canal Cablevisión del Atlántico.
Jorge Abilio Díaz, propietario de esa emisora televisiva, dijo que el crimen habría sido perpetrado por sicarios y agregó que conocería los posibles móviles del asesinato. Según publicó la prensa local, el padre de Suazo sería un reconocido dirigente campesino en ese sector. “En ese lugar, hay una lucha de las comunidades por el uso de los ríos. Puede ser que Souza haya prestado su micrófono a la población y esté vinculado a eso su asesinato, aunque no lo tengo confirmado”, explicó a Página/12 Bertha Oliva de Nativí, coordinadora del Comité de Familiares de Detenidos-Desaparecidos en Honduras (Cofadeh).
Con el asesinato de Souza, son diez los periodistas que fueron asesinados en Tegucigalpa. Según publicó el diario hondureño La Tribuna, las víctimas son Joseph Hernández Ochoa (Canal 51), David Meza (Radio El Patio), José Bayardo Mairena y Víctor Manuel Juárez (Radio Súper 10), Nahum Palacios (Televisión del Aguán), Luis Chévez (emisora W105), Georgino Orellana (canal de San Pedro Sula), Nicolás Asfura (periodista radial) y Luis Arturo Mondragón, director de noticias del Canal 19 de El Paraíso. La organización Campaña para un Emblema de Prensa dio a conocer el lunes una lista con los países más peligrosos para ejercer el periodismo. No por casualidad, Honduras ocupó el tercer puesto, detrás de México y Pakistán.
Las organizaciones de prensa y los organismos de derechos humanos denuncian que sigue impune la mayoría de los asesinatos de los trabajadores de medios cometidos después del golpe de Estado que arrancó del poder al presidente Manuel Zelaya en junio de 2009. El actual mandatario hondureño, Porfirio Lobo, intentó en varias ocasiones sacarles el tinte político a estos crímenes y desligar al gobierno de la responsabilidad por la muerte de los periodistas. Según el gobernante, los homicidios se deben a la “violencia criminal” que sacude al país. “Hay una fina estrategia para justificar toda la persecución que hay y para que ésta aparezca como un crimen común”, declaró Oliva de Nativí.
La violencia y la represión están a la orden del día en Tegucigalpa, según hacen saber las organizaciones humanitarias. El Comisionado Nacional de los Derechos Humanos reconoció que en los primeros seis meses de 2010 hubo un promedio de 16 muertes violentas por día. “En el primer semestre de 2010, la tasa nacional de homicidios por cada 100.000 habitantes fue de 36 y podría llegar a 72 al final de 2010 de mantenerse la tendencia actual”, indicó Custodio en un informe reciente. En 2009, Tegucigalpa había registrado una tasa de homicidios por habitante que multiplicaba por ocho al promedio mundial, que el Informe Mundial de la Violencia y la Salud estableció en 8,8.
La semana pasada, Human Rights Watch (HRW) emitió un informe y una recomendación para que el gobierno de Honduras investigue 47 casos de agresiones o amenazas y otros 18 asesinatos cometidos desde enero de este año contra periodistas, militantes políticos y defensores de los derechos humanos. “A pesar de que el presidente Lobo expresó su preocupación por estos casos, en los últimos seis meses atacó directamente a las organizaciones de derechos humanos, a las que acusó de tener intereses políticos”, dijo a este diario Wilfredo Méndez, director del Centro de Investigación y Promoción de los Derechos Humanos en Honduras (Ciprodeh). Méndez dijo que aún las organizaciones no manejan cifras definitivas, pero que en 2011 se presentará la investigación que está llevando a cabo la Comisión de la Verdad, de la que es cofundadora Nora Cortiñas, Madre de Plaza de Mayo.
Fecha de Publicación: 29.12.2010
Luciana Bertoia.
Fuente: Pagna 12
Otro periodista fue asesinado ayer en Honduras, con lo que ya suman diez los trabajadores de prensa asesinados en 2010. Mientras el presidente Porfirio Lobo vincula estos crímenes a la delincuencia común, las organizaciones de derechos humanos denuncian que la represión sigue creciendo en Tegucigalpa.
Al salir de su casa ubicada en el municipio de la Masica, Atlántida (norte), Henry Souza se desplomó. Varios sujetos, aún no está confirmado el número, lo acribillaron a balazos. Según relataron los vecinos de la zona, los atacantes tuvieron tiempo para fugarse en bicicleta. Al cierre de esta edición, no se había dado a conocer información oficial acerca del asesinato del comunicador, que era corresponsal de la importante emisora HRN en la ciudad de La Ceiba y que también trabajaba en el canal Cablevisión del Atlántico.
Jorge Abilio Díaz, propietario de esa emisora televisiva, dijo que el crimen habría sido perpetrado por sicarios y agregó que conocería los posibles móviles del asesinato. Según publicó la prensa local, el padre de Suazo sería un reconocido dirigente campesino en ese sector. “En ese lugar, hay una lucha de las comunidades por el uso de los ríos. Puede ser que Souza haya prestado su micrófono a la población y esté vinculado a eso su asesinato, aunque no lo tengo confirmado”, explicó a Página/12 Bertha Oliva de Nativí, coordinadora del Comité de Familiares de Detenidos-Desaparecidos en Honduras (Cofadeh).
Con el asesinato de Souza, son diez los periodistas que fueron asesinados en Tegucigalpa. Según publicó el diario hondureño La Tribuna, las víctimas son Joseph Hernández Ochoa (Canal 51), David Meza (Radio El Patio), José Bayardo Mairena y Víctor Manuel Juárez (Radio Súper 10), Nahum Palacios (Televisión del Aguán), Luis Chévez (emisora W105), Georgino Orellana (canal de San Pedro Sula), Nicolás Asfura (periodista radial) y Luis Arturo Mondragón, director de noticias del Canal 19 de El Paraíso. La organización Campaña para un Emblema de Prensa dio a conocer el lunes una lista con los países más peligrosos para ejercer el periodismo. No por casualidad, Honduras ocupó el tercer puesto, detrás de México y Pakistán.
Las organizaciones de prensa y los organismos de derechos humanos denuncian que sigue impune la mayoría de los asesinatos de los trabajadores de medios cometidos después del golpe de Estado que arrancó del poder al presidente Manuel Zelaya en junio de 2009. El actual mandatario hondureño, Porfirio Lobo, intentó en varias ocasiones sacarles el tinte político a estos crímenes y desligar al gobierno de la responsabilidad por la muerte de los periodistas. Según el gobernante, los homicidios se deben a la “violencia criminal” que sacude al país. “Hay una fina estrategia para justificar toda la persecución que hay y para que ésta aparezca como un crimen común”, declaró Oliva de Nativí.
La violencia y la represión están a la orden del día en Tegucigalpa, según hacen saber las organizaciones humanitarias. El Comisionado Nacional de los Derechos Humanos reconoció que en los primeros seis meses de 2010 hubo un promedio de 16 muertes violentas por día. “En el primer semestre de 2010, la tasa nacional de homicidios por cada 100.000 habitantes fue de 36 y podría llegar a 72 al final de 2010 de mantenerse la tendencia actual”, indicó Custodio en un informe reciente. En 2009, Tegucigalpa había registrado una tasa de homicidios por habitante que multiplicaba por ocho al promedio mundial, que el Informe Mundial de la Violencia y la Salud estableció en 8,8.
La semana pasada, Human Rights Watch (HRW) emitió un informe y una recomendación para que el gobierno de Honduras investigue 47 casos de agresiones o amenazas y otros 18 asesinatos cometidos desde enero de este año contra periodistas, militantes políticos y defensores de los derechos humanos. “A pesar de que el presidente Lobo expresó su preocupación por estos casos, en los últimos seis meses atacó directamente a las organizaciones de derechos humanos, a las que acusó de tener intereses políticos”, dijo a este diario Wilfredo Méndez, director del Centro de Investigación y Promoción de los Derechos Humanos en Honduras (Ciprodeh). Méndez dijo que aún las organizaciones no manejan cifras definitivas, pero que en 2011 se presentará la investigación que está llevando a cabo la Comisión de la Verdad, de la que es cofundadora Nora Cortiñas, Madre de Plaza de Mayo.
Fecha de Publicación: 29.12.2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
(Haiti-Assistência Médica) - Médicos cubanos no Haiti deixam o mundo envergonhado
Promessas de países como os Estados Unidos de ajuda aos haitianos vítimas de colera não se concretizaram, mas equipes de médicos participam ativamente de assistir os necessitados de cuidados
médicos
Nina Lakhani
Fonte: The Independent
Os médicos cubanos são os verdadeiros heróis do desastre do terremoto no Haiti, a catástrofe humana na porta da América, a qual Barack Obama prometeu uma monumental missão humanitária dos EUA para aliviar. Esses heróis são da nação arqui-inimiga dos Estados Unidos, Cuba, cujos médicos e enfermeiros deixaram os esforços dos EUA envergonhados.
Uma brigada de 1.200 médicos cubanos está operando em todo o Haiti, rasgado por terremotos e infectado com cólera, como parte da missão médica internacional de Fidel Castro, que ganhou muitos amigos para o Estado socialista, mas pouco reconhecimento internacional.
Observadores do terremoto no Haiti poderiam ser perdoados por pensar operações de agências de ajuda internacional e por os deixarem sozinhos na luta contra a devastação que matou 250.000 pessoas e deixou cerca de 1,5 milhões de desabrigados. De fato, trabalhadores da saúde cubanos estão no Haiti desde 1998, quando um forte terremoto atingiu o país. E em meio a fanfarra e publicidade em torno da chegada de ajuda dos EUA e do Reino Unido, centenas de médicos, enfermeiros e terapeutas cubanos chegaram discretamente. A maioria dos países foi embora em dois meses, novamente deixando os cubanos e os Médicos Sem Fronteiras como os principais prestadores de cuidados para a ilha caribenha.
Números divulgados na semana passada mostram que o pessoal médico cubano, trabalhando em 40 centros em todo o Haiti, tem tratado mais de 30.000 doentes de cólera desde outubro. Eles são o maior contingente estrangeiro, tratando cerca de 40% de todos os doentes de cólera. Um outro grupo de médicos da brigada cubana Henry Reeve, uma equipe especializada em desastre e em emergência, chegou recentemente, deixando claro que o Haiti está se esforçando para lidar com a epidemia que já matou centenas de pessoas.
Desde 1998, Cuba treinou 550 médicos haitianos gratuitamente na Escola Latinoamericana de Medicina em Cuba (Elam), um dos programas médicos mais radicais do país. Outros 400 estão sendo treinados na escola, que oferece ensino gratuito - incluindo livros gratuitos e um pouco de dinheiro para gastar - para qualquer pessoa suficientemente qualificada e que não pode pagar para estudar Medicina em seu próprio país.
John Kirk é um professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade Dalhousie, no Canadá, que pesquisa equipes médicas internacionais de Cuba. Ele disse: "A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado.".
Esta tradição remonta a 1960, quando Cuba enviou um punhado de médicos para o Chile, atingido por um forte terremoto, seguido por uma equipe de 50 a Argélia em 1963. Isso foi apenas quatro anos depois da Revolução.
Os médicos itinerantes têm servido como uma arma extremamente útil da política externa e econômica do governo, gahando amigos e favores em todo o globo. O programa mais conhecido é a "Operação Milagre", que começou com os oftalmologistas tratando os portadores de catarata em aldeias pobres venezuelanos em troca de petróleo. Esta iniciativa tem restaurado a visão de 1,8 milhões de pessoas em 35 países, incluindo o de Mario Terán, o sargento boliviano que matou Che Guevara em 1967.
A Brigada Henry Reeve, rejeitada pelos norteamericanos após o furacão Katrina, foi a primeira equipe a chegar ao Paquistão após o terremoto de 2005, e a última a sair seis meses depois.
A Constituição de Cuba estabelece a obrigação de ajudar os países em pior situação, quando possível, mas a solidariedade internacional não é a única razão, segundo o professor Kirk. "Isso permite que os médicos cubanos, que são terrivelmente mal pagos, possam ganhar dinheiro extra no estrangeiro e aprender mais sobre as doenças e condições que apenas estudaram. É também uma obsessão de Fidel e ele ganha votos na ONU."
Um terço dos 75 mil médicos de Cuba, juntamente com 10.000 trabalhadores de saúde, estão atualmente trabalhando em 77 países pobres, incluindo El Salvador, Mali e Timor Leste. Isso ainda deixa um médico para cada 220 pessoas em casa, uma das mais altas taxas do mundo, em comparação com um para cada 370 na Inglaterra.
Onde quer que sejam convidados, os cubanos implementam o seu modelo de prevenção com foco global, visitando famílias em casa, com monitoração proativa de saúde materna e infantil. Isso produziu "resultados impressionantes" em partes de El Salvador, Honduras e Guatemala, e redução das taxas de mortalidade infantil e materna, redução de doenças infecciosas e deixando para trás uma melhor formação dos trabalhadores de saúde locais, de acordo com a pesquisa do professor Kirk.
A formação médica em Cuba dura seis anos - um ano mais do que no Reino Unido - após o qual todos trabalham após a graduação como um médico de família por três anos no mínimo. Trabalhando ao lado de uma enfermeira, o médico de família cuida de 150 a 200 famílias na comunidade em que vive.
Este modelo ajudou Cuba a alcançar alguns índices invejáveis de melhoria em saúde no mundo, apesar de gastar apenas $ 400 (£ 260) por pessoa no ano passado em comparação com $ 3.000 (£ 1.950) no Reino Unido e $ 7.500 (£ 4,900) nos EUA, de acordo com Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento.
A taxa de mortalidade infantil, um dos índices mais confiáveis da saúde de uma nação, é de 4,8 por mil nascidos vivos - comparável com a Grã-Bretanha e menor do que os EUA. Apenas 5% dos bebês nascem com baixo peso ao nascer, um fator crucial para a saúde a longo prazo, e a mortalidade materna é a mais baixa da América Latina, mostram os números da Organização Mundial de Saúde.
As policlínicas de Cuba, abertas 24 horas por dia para emergências e cuidados especializados, é um degrau a partir do médico de família. Cada uma prevê 15.000 a 35.000 pacientes por meio de um grupo de consultores em tempo integral, assim como os médicos de visita, garantindo que a maioria dos cuidados médicos são prestados na comunidade.
Imti Choonara, um pediatra de Derby, lidera uma delegação de profissionais de saúde internacionais, em oficinas anuais na terceira maior cidade de Cuba, Camagüey. "A saúde em Cuba é fenomenal, e a chave é o médico de família, que é muito mais pró-ativo, e cujo foco é a prevenção. A ironia é que os cubanos vieram ao Reino Unido após a revolução para ver como o HNS [Serviço Nacional de Saúde] funcionava. Eles levaram de volta o que viram, refinaram e desenvolveram ainda mais, enquanto isso estamos nos movendo em direção ao modelo dos EUA ", disse o professor Choonara.
A política, inevitavelmente, penetra muitos aspectos da saúde cubana. Todos os anos os hospitais produzem uma lista de medicamentos e equipamentos que têm sido incapazes de acesso por causa do embargo americano, o qual que muitas empresas dos EUA de negociar com Cuba, e convence outros países a seguir o exemplo. O relatório 2009/10 inclui medicamentos para o câncer infantil, HIV e artrite, alguns anestésicos, bem como produtos químicos necessários para o diagnóstico de infecções e órgãos da loja. Farmácias em Cuba são caracterizados por longas filas e estantes com muitos vazios. Em parte, isso se deve ao fato de que eles estocam apenas marcas genéricas.
Antonio Fernandez, do Ministério da Saúde Pública, disse: "Nós fazemos 80% dos medicamentos que usamos. O resto nós importamos da China, da antiga União Soviética, da Europa - de quem vender para nós - mas isso é muito caro por causa das distâncias."
Em geral, os cubanos são imensamente orgulhosos e apóiam a contribuição no Haiti e outros países pobres, encantados por conquistar mais espaço no cenário internacional. No entanto, algumas pessoas queixam-se da espera para ver o seu médico, pois muitos estão trabalhando no exterior. E, como todas as commodities em Cuba, os medicamentos estão disponíveis no mercado negro para aqueles dispostos a arriscar grandes multas se forem pegos comprando ou vendendo.
As viagens internacionais estão além do alcance da maioria dos cubanos, mas os médicos e enfermeiros qualificados estão entre os proibidos de deixar o país por cinco anos após a graduação, salvo como parte de uma equipe médica oficial.
Como todo mundo, os profissionais de saúde ganham salários miseráveis em torno de 20 dólares (£ 13) por mês. Assim, contrariamente às contas oficiais, a corrupção existe no sistema hospitalar, o que significa que alguns médicos e até hospitais, estão fora dos limites a menos que o paciente possa oferecer alguma coisa, talvez almoçar ou alguns pesos, para tratamento preferencial.
Empresas internacionais de Cuba na área da saúde estão se tornando cada vez mais estratégicas. No mês passado, funcionários mantiveram conversações com o Brasil sobre o desenvolvimento do sistema de saúde pública no Haiti, que o Brasil e a Venezuela concordaram em ajudar a financiar.
A formação médica é outro exemplo. Existem atualmente 8.281 alunos de mais de 30 países matriculados na Elam, que no mês passado comemorou o seu 11 º aniversário. O governo espera transmitir um senso de responsabilidade social para os alunos, na esperança de que eles vão trabalhar dentro de suas próprias comunidades pobres pelo menos cinco anos.
Damien Joel Soares, 27 anos, estudante de segundo ano de New Jersey, é um dos 171 estudantes norte-americanos; 47 já se formaram. Ele rejeita as alegações de que Elam é parte da máquina de propaganda cubana. "É claro que Che é um herói, mas aqui isso não é forçado garganta abaixo."
Outros 49.000 alunos estão matriculados no "Novo Programa de Formação de Médicos Latino-americanos", a ideia de Fidel Castro e Hugo Chávez, que prometeu em 2005 formar 100 mil médicos para o continente. O curso é muito mais prático, e os críticos questionam a qualidade da formação.
O professor Kirk discorda: "A abordagem high-tech para as necessidades de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum."
Há nove milhões de haitianos que provavelmente concordariam.
Data de Publicação: 27.12.2010
médicos
Nina Lakhani
Fonte: The Independent
Os médicos cubanos são os verdadeiros heróis do desastre do terremoto no Haiti, a catástrofe humana na porta da América, a qual Barack Obama prometeu uma monumental missão humanitária dos EUA para aliviar. Esses heróis são da nação arqui-inimiga dos Estados Unidos, Cuba, cujos médicos e enfermeiros deixaram os esforços dos EUA envergonhados.
Uma brigada de 1.200 médicos cubanos está operando em todo o Haiti, rasgado por terremotos e infectado com cólera, como parte da missão médica internacional de Fidel Castro, que ganhou muitos amigos para o Estado socialista, mas pouco reconhecimento internacional.
Observadores do terremoto no Haiti poderiam ser perdoados por pensar operações de agências de ajuda internacional e por os deixarem sozinhos na luta contra a devastação que matou 250.000 pessoas e deixou cerca de 1,5 milhões de desabrigados. De fato, trabalhadores da saúde cubanos estão no Haiti desde 1998, quando um forte terremoto atingiu o país. E em meio a fanfarra e publicidade em torno da chegada de ajuda dos EUA e do Reino Unido, centenas de médicos, enfermeiros e terapeutas cubanos chegaram discretamente. A maioria dos países foi embora em dois meses, novamente deixando os cubanos e os Médicos Sem Fronteiras como os principais prestadores de cuidados para a ilha caribenha.
Números divulgados na semana passada mostram que o pessoal médico cubano, trabalhando em 40 centros em todo o Haiti, tem tratado mais de 30.000 doentes de cólera desde outubro. Eles são o maior contingente estrangeiro, tratando cerca de 40% de todos os doentes de cólera. Um outro grupo de médicos da brigada cubana Henry Reeve, uma equipe especializada em desastre e em emergência, chegou recentemente, deixando claro que o Haiti está se esforçando para lidar com a epidemia que já matou centenas de pessoas.
Desde 1998, Cuba treinou 550 médicos haitianos gratuitamente na Escola Latinoamericana de Medicina em Cuba (Elam), um dos programas médicos mais radicais do país. Outros 400 estão sendo treinados na escola, que oferece ensino gratuito - incluindo livros gratuitos e um pouco de dinheiro para gastar - para qualquer pessoa suficientemente qualificada e que não pode pagar para estudar Medicina em seu próprio país.
John Kirk é um professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade Dalhousie, no Canadá, que pesquisa equipes médicas internacionais de Cuba. Ele disse: "A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Eles são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado.".
Esta tradição remonta a 1960, quando Cuba enviou um punhado de médicos para o Chile, atingido por um forte terremoto, seguido por uma equipe de 50 a Argélia em 1963. Isso foi apenas quatro anos depois da Revolução.
Os médicos itinerantes têm servido como uma arma extremamente útil da política externa e econômica do governo, gahando amigos e favores em todo o globo. O programa mais conhecido é a "Operação Milagre", que começou com os oftalmologistas tratando os portadores de catarata em aldeias pobres venezuelanos em troca de petróleo. Esta iniciativa tem restaurado a visão de 1,8 milhões de pessoas em 35 países, incluindo o de Mario Terán, o sargento boliviano que matou Che Guevara em 1967.
A Brigada Henry Reeve, rejeitada pelos norteamericanos após o furacão Katrina, foi a primeira equipe a chegar ao Paquistão após o terremoto de 2005, e a última a sair seis meses depois.
A Constituição de Cuba estabelece a obrigação de ajudar os países em pior situação, quando possível, mas a solidariedade internacional não é a única razão, segundo o professor Kirk. "Isso permite que os médicos cubanos, que são terrivelmente mal pagos, possam ganhar dinheiro extra no estrangeiro e aprender mais sobre as doenças e condições que apenas estudaram. É também uma obsessão de Fidel e ele ganha votos na ONU."
Um terço dos 75 mil médicos de Cuba, juntamente com 10.000 trabalhadores de saúde, estão atualmente trabalhando em 77 países pobres, incluindo El Salvador, Mali e Timor Leste. Isso ainda deixa um médico para cada 220 pessoas em casa, uma das mais altas taxas do mundo, em comparação com um para cada 370 na Inglaterra.
Onde quer que sejam convidados, os cubanos implementam o seu modelo de prevenção com foco global, visitando famílias em casa, com monitoração proativa de saúde materna e infantil. Isso produziu "resultados impressionantes" em partes de El Salvador, Honduras e Guatemala, e redução das taxas de mortalidade infantil e materna, redução de doenças infecciosas e deixando para trás uma melhor formação dos trabalhadores de saúde locais, de acordo com a pesquisa do professor Kirk.
A formação médica em Cuba dura seis anos - um ano mais do que no Reino Unido - após o qual todos trabalham após a graduação como um médico de família por três anos no mínimo. Trabalhando ao lado de uma enfermeira, o médico de família cuida de 150 a 200 famílias na comunidade em que vive.
Este modelo ajudou Cuba a alcançar alguns índices invejáveis de melhoria em saúde no mundo, apesar de gastar apenas $ 400 (£ 260) por pessoa no ano passado em comparação com $ 3.000 (£ 1.950) no Reino Unido e $ 7.500 (£ 4,900) nos EUA, de acordo com Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento.
A taxa de mortalidade infantil, um dos índices mais confiáveis da saúde de uma nação, é de 4,8 por mil nascidos vivos - comparável com a Grã-Bretanha e menor do que os EUA. Apenas 5% dos bebês nascem com baixo peso ao nascer, um fator crucial para a saúde a longo prazo, e a mortalidade materna é a mais baixa da América Latina, mostram os números da Organização Mundial de Saúde.
As policlínicas de Cuba, abertas 24 horas por dia para emergências e cuidados especializados, é um degrau a partir do médico de família. Cada uma prevê 15.000 a 35.000 pacientes por meio de um grupo de consultores em tempo integral, assim como os médicos de visita, garantindo que a maioria dos cuidados médicos são prestados na comunidade.
Imti Choonara, um pediatra de Derby, lidera uma delegação de profissionais de saúde internacionais, em oficinas anuais na terceira maior cidade de Cuba, Camagüey. "A saúde em Cuba é fenomenal, e a chave é o médico de família, que é muito mais pró-ativo, e cujo foco é a prevenção. A ironia é que os cubanos vieram ao Reino Unido após a revolução para ver como o HNS [Serviço Nacional de Saúde] funcionava. Eles levaram de volta o que viram, refinaram e desenvolveram ainda mais, enquanto isso estamos nos movendo em direção ao modelo dos EUA ", disse o professor Choonara.
A política, inevitavelmente, penetra muitos aspectos da saúde cubana. Todos os anos os hospitais produzem uma lista de medicamentos e equipamentos que têm sido incapazes de acesso por causa do embargo americano, o qual que muitas empresas dos EUA de negociar com Cuba, e convence outros países a seguir o exemplo. O relatório 2009/10 inclui medicamentos para o câncer infantil, HIV e artrite, alguns anestésicos, bem como produtos químicos necessários para o diagnóstico de infecções e órgãos da loja. Farmácias em Cuba são caracterizados por longas filas e estantes com muitos vazios. Em parte, isso se deve ao fato de que eles estocam apenas marcas genéricas.
Antonio Fernandez, do Ministério da Saúde Pública, disse: "Nós fazemos 80% dos medicamentos que usamos. O resto nós importamos da China, da antiga União Soviética, da Europa - de quem vender para nós - mas isso é muito caro por causa das distâncias."
Em geral, os cubanos são imensamente orgulhosos e apóiam a contribuição no Haiti e outros países pobres, encantados por conquistar mais espaço no cenário internacional. No entanto, algumas pessoas queixam-se da espera para ver o seu médico, pois muitos estão trabalhando no exterior. E, como todas as commodities em Cuba, os medicamentos estão disponíveis no mercado negro para aqueles dispostos a arriscar grandes multas se forem pegos comprando ou vendendo.
As viagens internacionais estão além do alcance da maioria dos cubanos, mas os médicos e enfermeiros qualificados estão entre os proibidos de deixar o país por cinco anos após a graduação, salvo como parte de uma equipe médica oficial.
Como todo mundo, os profissionais de saúde ganham salários miseráveis em torno de 20 dólares (£ 13) por mês. Assim, contrariamente às contas oficiais, a corrupção existe no sistema hospitalar, o que significa que alguns médicos e até hospitais, estão fora dos limites a menos que o paciente possa oferecer alguma coisa, talvez almoçar ou alguns pesos, para tratamento preferencial.
Empresas internacionais de Cuba na área da saúde estão se tornando cada vez mais estratégicas. No mês passado, funcionários mantiveram conversações com o Brasil sobre o desenvolvimento do sistema de saúde pública no Haiti, que o Brasil e a Venezuela concordaram em ajudar a financiar.
A formação médica é outro exemplo. Existem atualmente 8.281 alunos de mais de 30 países matriculados na Elam, que no mês passado comemorou o seu 11 º aniversário. O governo espera transmitir um senso de responsabilidade social para os alunos, na esperança de que eles vão trabalhar dentro de suas próprias comunidades pobres pelo menos cinco anos.
Damien Joel Soares, 27 anos, estudante de segundo ano de New Jersey, é um dos 171 estudantes norte-americanos; 47 já se formaram. Ele rejeita as alegações de que Elam é parte da máquina de propaganda cubana. "É claro que Che é um herói, mas aqui isso não é forçado garganta abaixo."
Outros 49.000 alunos estão matriculados no "Novo Programa de Formação de Médicos Latino-americanos", a ideia de Fidel Castro e Hugo Chávez, que prometeu em 2005 formar 100 mil médicos para o continente. O curso é muito mais prático, e os críticos questionam a qualidade da formação.
O professor Kirk discorda: "A abordagem high-tech para as necessidades de saúde em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo em algum lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum."
Há nove milhões de haitianos que provavelmente concordariam.
Data de Publicação: 27.12.2010
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